Grupo liderado por Carlos Mota Santos está no meio de uma tabela encabeçada pela China State Construction Engineering Corporation, segundo a uma análise internacional da Deloitte.
A Mota-Engil está a meio da lista das maiores construtoras do mundo. O grupo de construção português surge em 55º lugar do ranking das 100 empresas do setor com mais vendas e capitalização de mercado, de acordo com o estudo “Poderes Globais da Construção”, elaborado pela Deloitte e enviado ao ECO.
A consultora destaca as vendas em 2025, o ano em que teve o melhor resultado anual de sempre (lucros de 133 milhões de euros) e faturou 5.301 milhões de euros, e elenca a capitalização de mercado de 1.781 milhões de dólares (aproximadamente 1.400 milhões de euros) da empresa liderada por Carlos Mota Santos. Os resultados colocaram a Mota-Engil no centro de uma tabela encabeçada pelas asiáticas China State Construction Engineering Corporation (CSCEC), China Railway Group Limited (CREC) e China Railway Construction Corporation (CRCC).
Miguel Nuno Fontes, partner da Deloitte Portugal responsável pela área da construção, explica ao ECO que este setor enfrenta vários “travões na execução”, entre os quais a geopolítica, os custos de financiamento, o aumento do preço das matérias-primas, a volatilidade dos mercados financeiros e a escassez de mão-de-obra, mas continua com “vetores de procura”, como a urbanização, a transição energética e o boom da inteligência artificial, que requer data centers.
O relatório Global Powers of Construction 2026 concluiu que há uma tendência positiva na Europa, até porque é o Velho Continente, com 40 empresas no ranking, que lidera em número de companhias listadas e deu um dos principais contributos para o total de receitas aproximar-se dos 2.000 biliões de dólares (1.733 biliões de euros). “O setor de engenharia e construção civil não é um parado, continua a viver um momento de transição, e na Europa vive uma fase de recuperação apoiada, porque o mercado acionista premiou as empresas europeias”, explicou Miguel Fontes.
O ímpeto para colocar a Europa em segundo lugar das regiões – com um peso de 24,5% no total das receitas – foi dado sobretudo por França e Espanha, nomeadamente por players como ACS, Vinci, Eiffage e Acciona. Porém, apesar da ‘obra’ franco -espanhola, foram as empresas com sede na China a representar a maior parte da atividade global de construção, com praticamente metade (48,5%) do total das vendas: cerca de 957 mil milhões de dólares, ainda que tenha caído 5,5% face a 2024.
O contributo europeu e da segunda maior economia do mundo compensou a performance negativa dos Estados Unidos da América, onde o arrefecimento do mercado residencial levou a que as duas maiores construtoras de casas norte-americanas Lennar (-27.7%) e D.R. Horton caíssem a dois dígitos na capitalização de mercado.
investidores.
O sócio da Deloitte Portugal, encarregue da área de Produtos Industriais e Construção, detalha que é impossível dissociar este movimento com a regiões do mapa de onde vêm os contratos. Na prática, as construtoras da Europa beneficiam das obras realizadas fora da Europa. “Uma parte significativa (67%) das receitas das empresas europeias é feita fora do mercado doméstico. Um dos grandes exemplos é nacional, o único grupo que surge no ranking. Em março, a Mota-Engil apresentou o seu plano estratégico a cinco anos e vemos que os mercados africano e da América Latina são onde há mais contributo. A pegada das geografias fora da Europa vê-se também noutras empresas espanholas, como a SACI.
De facto, no primeiro semestre, a Mota-Engil lucrou 74 milhões de euros (+24%) e teve um volume de negócios de 2.898 milhões de euros (+6%), impulsionados pelo crescimento nos vários segmentos de atividade – engenharia e construção, ambiente, serviços de engenharia industrial ou energia – e pela contribuição de África e da América Latina. Entre janeiro e junho, a empresa com sede no Porto obteve também um novo máximo histórico na carteira de encomendas, que supera os 17,7 mil milhões de euros.
É também por este motivo que a nona edição do estudo da Deloitte considera que a indústria tem demonstrado resiliência, fruto das alterações demográficas, da transformação digital e da transição para economias de baixo carbono, que “continuam a sustentar a procura a longo prazo”, lê-se no relatório, cujos dados são obtidos das contas anuais de empresas, bem como Euroconstruct, Comissão Europeia, FMI, Banco Mundial, Forbes e Engineering News-Record para classificar indicadores financeiros como vendas, avaliação e rentabilidade, mas também presença internacional e diversidade do negócio.
Tradicionalmente, este setor tem margens estreitas, mas acho que, havendo uma procura significativa e estrutural, carteiras de encomendas fortes, os grupos podem ter maior seleção de projetos no portefólio global. No curto prazo, devemos terminar o ano com um crescimento global moderado 1,5% e uma perspetiva de crescimento composto até 2030 de até 6%.
E no futuro? A alavanca da construção europeia serão os centros de dados – em particular o projeto da gigafábrica de IA, o novo aeroporto da região de Lisboa e a Linha de Alta Velocidade, enumera o consultor. “Vejo grupos [além da Mota-Engil com ambição e movimentos de modernização e de melhoria de produtividade, como a Casais. Acima de tudo, o setor tem de olhar com alguma inteligência para a tecnologia, testar casos de uso, BIM – Building Information Modeling e construção modular”, conclui o partner da Deloitte.
ECO
