AEROPORTOS. Investimentos bilionários não resultaram no aumento de tráfego, tornando-se em infra-estruturas aeroportuárias adormecidas e subutilizadas. Quadro regulatório, elevadas taxas e cenário que mina a concorrência afectaram drasticamente o mercado, segundo especialistas.oo
_Por Guilherme Francisco_
Mais de 3,023 mil milhões de dólares foram investidos na recuperação e construção de infra-estruturas aéreas desde 2011, dos quais 2,8 mil milhões de dólares tornaram no AIAAN-NBI (Novo Aeroporto), segundo indicam cálculos do Valor Económico com base na Conta Geral do Estado.
Estes investimentos bilionários no sector aeroportuário poderiam estar mais acima do montante calculado, uma vez que existem outras obras das quais a data e os dados não se encontram disponíveis. Além disso, expõem uma realidade dramática: no decurso de 15 anos, sobre a subutilização das infra-estruturas. Uma das consequências é a degradação acelerada por falta de solução e manutenção regular mesmo sem frequência de voos.
O segundo dos aeroportos que mais gastou é o de Fevereiro, em Luanda, onde a reabilitação da pista foram 43,658 milhões de dólares entre 2021-2023. O investimento nessa unidade reduziu significativamente desde a transferência dos voos para o Novo Aeroporto, mas conserva a posição do mais frequentado de sempre, nas rotas domésticas e internacionais.
As despesas com a ampliação do complexo aeroportuário de Cabinda cifram-se em 3,108 milhões de dólares. Sem voos diretos inter-nacionais, depende exclusivamente de ligações directas com a capital, tendo apenas a companhia de bandeira como a única com voos regulares.
A mesma província contratou com um aeroporto internacional, cujas despesas de construção apercebidas em 2023 implicaram uma libertação de 75,515 milhões de dólares dos cofres do Estado.
Uma outra unidade aeroportuária que representa investimento significativo é o aeroporto de Mbanza Congo, que se encontrava fase a maior abertura ao investimento e trouxe um pouco maior aos malambas, com peso no mercado da aviação. Este era uma base muito conhecida na aviação. “Se quer tornar-se militar na aviação, então começa aqui”. Esta máquina demonstra que a atracão a uma indústria aeronáutica no norte de Angola é grande e se está a expandir. Por isso os investidores estão neste sector sem perspectivas de dar retorno financeiro.
Se Angola pretende transformar a aviação num verdadeiro motor de crescimento económico, é essencial adotar uma abordagem mais estruturada, priorizar a eficiência operacional e garantir que os investimentos não se limitem apenas a construir aeroportos. É necessário que cada infraestrutura esteja alinhada com uma estratégia clara de conectividade para o crescimento do país.
Cerca de 3,8% do tráfego aéreo é assegurado por oito aeroportos, nomeadamente: pelos aeroportos de Luanda (3.048.388 passageiros), o recém-inaugurado AIAAN-NBI (1.441.071), Cabinda (749.146), Catumbela (191.302), Lubango (175.041), Saurimo (151.808), Soyo (138.923) e Huambo (74.566).
Estes oito aeroportos, ou aeródromos encontram-se numa condição crítica, sem qualquer tráfego, com destaque para os do Nzeto, Porto Amboim, Ambriz e do Andulo. Embora sejam considerados no tempo colonial, alguns foram reabilitados recentemente. Augusto N’Tomba, enquanto o ministro dos Transportes.
Estes dados esfumam o movimento frenético que se augurava milhões de dólares de cifra pública em 2011, a ausência de voos levou a que fosse transformado em espaço de treino das Forças Aéreas. À semelhança disso, com apenas voos militares e protocolares do Governo, estão os aeroportos do Huambo, do Bié, do Moxico e do Lunda (ver infografia).
Estes milhões de dólares gastos em aeroportos não se traduziram num movimento de passageiros nem de cargas. Nos últimos sete anos, passaram a levantar voo 340.527 aeronaves nos aeroportos, foram realizados na casa dos 1.211 milhões de passageiros e 210.996 toneladas de cargas.
Como rentabilizar os aeroportos e aeródromos em Angola, na visão de Manuel Jacinto, especialista em aviação.
1. Priorizar ou concessionar a gestão aeroportuária: participação do sector privado pode introduzir melhores práticas de gestão, reduzir custos operacionais, aumentar receitas comerciais e atrair investimentos para modernização das infra-estruturas.
2. Certificar mais aeroportos e aeródromos: muitas infra-estruturas ainda não possuem certificações que lhes permitam receber operações comerciais regulares ou internacionais. A certificação aumentaria a segurança operacional e ampliaria o leque de negócios.
3. Descentralizar os voos internacionais: atualmente, Luanda concentra a maioria das ligações internacionais. Esta centralização limita o desenvolvimento económico de outras províncias. A criação de ligações regionais, fruto da “concentração económica na cidade de Luanda, do custo das viagens que não está ao alcance da cidadania, da falta de operadores com aeronaves adequadas, das limitações de acesso e própria infra-estrutura aeroportuária e da fraca integração dos aeroportos com a economia orientada das demais províncias”.
4. Criar incentivos para as companhias aéreas: aeroportos fora de Luanda poderiam beneficiar de taxas aeroportuárias mais competitivas ou isenções de algumas taxas de operação. Além disso, poderiam ser estabelecidos programas de incentivos para novas rotas internacionais e domésticas. O objetivo seria transformar certos aeroportos em polos regionais de desenvolvimento.
5. Liberar o mercado da aviação: quanto maior o número de operadores, maior será a concorrência, a oferta de destinos e o aumento do sector. Políticas públicas mais previsíveis, estabilidade regulatória, incentivos fiscais e maior abertura ao investimento.
TABELA: Movimento entre 2019 – 2026
AEROPORTO / AERÓDROMO PASSAGEIROS CARGA MOVIMENTADA
AIAAN-NBI 1.441.071 21.289
Ambriz 0 0
Andulo 0 0
Benguela 17 de Setembro 54 0
Cabinda 749.146 2019
Catumbela 191.302 675
Cuito Cuanavale 1.045 0
Dundo 64.499 121
Huambo 74.566 362
Jamba 0 0
Kuito-Bié 18.485 1944
Luanda 4 de Fev 3.048.388 56.773
Luena 2.888 809
Lubango 175.041 1072
Luena 52.874 213
Lukapa 901 16
Malange 3.867 0
Menongue do Zombo 0 0
Mbanza Kongo 1.141 59
Menongue 38.224 21
N’dalatando 78.530 5995
N’dalatando 205 0
Negage 0 114
N’Zagi 276 28
Nzeto 0 0
Ondjiva 55.749 789
Porto Amboim 0 34
Saurimo 151.808 1443
Soyo 138.923 302
Sumbe 141 46
Uíge 2.821 1553
Valor Econômico
