Luís Nunes: O Governador de Luanda que controla 65% da construtora mais beneficiada pelo Estado, Omatapalo

A recente nomeação de Luís Manuel da Fonseca Nunes para o cargo de Governador da Província de Luanda fez regressar ao debate público o nexo entre o poder político e o sector empresarial privado em Angola. O governante é o proprietário de 60% da empresa familiar Socolil (sendo os restantes 40% detidos pela sua esposa). Por sua vez, a Socolil é a accionista maioritária com 65% do capital social do grupo de construção civil Omatapalo, enquanto os restantes 33% pertencem à empresa Highways Investment (do empresário português Carlos Alves) e 2% à própria Omatapalo Engenharia.

Especialistas e juristas dividem-se entre a legalidade estrita do afastame nto formal do governante da gestão das suas empresas e a necessidade de maior transparência na adjudicação de obras por contratação simplificada. O percurso de Luís Nunes na administração pública tem sido marcado pela transição entre províncias de grande peso económico. Nomeado oficialmente pelo Presidente da República, João Lourenço, estreou-se na governação na província da Huíla em 2018. Três anos mais tarde, em 2021, transitou para a liderança de Benguela, até assumir recentemente a governação da capital, Luanda.

Em termos jurídicos, ao entrar para a política activa em 2018, o empresário deixou oficialmente o cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA) da construtora. Do ponto de vista estritamente formal, a medida cumpre as incompatibilidades de gestão previstas. De acordo com o quadro legislativo angolano, nomeadamente a Lei da Probidade Pública, os titulares de cargos políticos estão impedidos de exercer funções de gerência ou administração activa em empresas privadas durante o mandato público, de forma a prevenir conflitos de interesses.

A direcção executiva da Omatapalo passou a ser assegurada por um conselho de administração profissionalizado sem interferência administrativa formal do governante. No entanto, a sua condição de beneficiário efectivo da holding — mantendo o controlo indirecto de 65% das acções — permanece inalterada. Uma prática que encontra amparo legal desde que o titular não intervenha directamente nos actos de adjudicação.

O cerne do debate público e das críticas por parte da sociedade civil prende-se com o volume de negócios da empresa com o Estado. É de conhecimento público, através de sucessivas publicações em Diário da República, que a Omatapalo se tornou numa das principais operadoras na absorção de uma fatia bilionária de contratos públicos por Contratação Simplificada (ajuste directo) em Angola. Nos últimos anos, a Omatapalo tem sido seleccionada para executar múltiplos projectos de grande dimensão através do mecanismo de Contratação Simplificada (vulgarmente conhecido como ajuste directo), aprovado por via de Despachos Presidenciais.

Os críticos apontam que o recurso recorrente a esta modalidade excepcional — que dispensa o concurso público — limita a concorrência e levanta dúvidas éticas devido à posição política do seu proprietário. Em contrapartida, defensores e sectores ligados ao ramo defendem que a escolha assenta na capacidade técnica comprovada, solidez financeira e rapidez na entrega das obras, critérios considerados prioritários pelo Executivo para a execução do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM).

Com a transferência do empresário e governante para Luanda, a atenção mediática redobrou. A província da capital concentra actualmente os maiores investimentos do país em vias secundárias, saneamento e reabilitação de edifícios públicos, áreas onde a Omatapalo e os seus consórcios parceiros detêm uma forte presença operacional. Ainda que o Governador Provincial não possua competência legal para autorizar ou adjudicar contratos desta envergadura financeira — uma prerrogativa do Executivo central —, sectores da opinião pública continuam a questionar a eficácia dos mecanismos de fiscalização quando o principal beneficiário financeiro das obras executadas na província é o próprio líder do governo local.

O órgão máximo que lidera o rumo do grupo empresarial divide-se da seguinte forma:

Presidente do Conselho de Administração (PCA) e CEO: A liderança executiva global do grupo está a cargo de Pedro Vieira Santos, que assumiu o comando da organização.

Conselho de Administração: Além de Pedro Vieira Santos, a estrutura de governação do grupo conta com os administradores Marques Antunes e o administrador não-executivo Carlos Freitas.

Comissão Executiva: O grupo dispõe de uma comissão alargada com 11 membros para gerir as operações diárias, onde se destacam directores seniores como Manuel Mamboza (Diretor Executivo do Grupo) e Francisco Franca (Diretor Executivo para Operações Internacionais).

Em Portugal, a sucursal local (Omatapalo Portugal) é liderada por uma equipa específica composta por José Domingos Silva (CEO), Ricardo Costa (CFO) e Américo Gomes (COO). Esta equipa profissional de gestores assegura que a construtora opere sem a interferência ou gestão directa do seu accionista principal, o actual Governador de Luanda.

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