Luanda — A Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), liderada por Cristina Giovanna Dias Lourenço assume o centro da maior operação do mercado de capitais angolano dos últimos anos, com a entrada em bolsa da UNITEL através de uma Oferta Pública de Venda (OPV) de 7,5 milhões de acções, representando 15% do capital social da operadora.
OPERAÇÃO HISTÓRICA DE 15% DO CAPITAL
A operação, enquadrada no PROPRIV e promovida pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), marca a transição da UNITEL para o mercado bolsista, num processo que reforça o papel da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) enquanto plataforma estruturante do sistema financeiro angolano.
Embora o processo seja publicamente liderado por Cristina Giovanna Dias Lourenço, presidente da BODIVA, torna-se ingénuo separar a gestora da sua árvore genealógica. Num ecossistema político centralizado como o angolano, uma operação desta magnitude que envolve a maior operadora de telecomunicações do país não se decide nos corredores técnicos da bolsa. É um segredo aberto que Cristina Lourenço atua sob a estrita orientação e conveniência política do seu pai, o Presidente da República, João Lourenço.
A privatização da UNITEL surge, assim, não como uma reforma económica isenta, mas como uma diretriz desenhada no topo do palácio presidencial e executada pela própria família na liderança dos mercados financeiros.
O “Desmantelamento” do Legado de Isabel dos Santos
Não se pode falar da UNITEL sem recordar que a engenharia e o crescimento da operadora estão indissociavelmente ligados a Isabel dos Santos. A empresa foi erguida, expandida e tornada num gigante africano sob a sua propriedade e gestão.
A pressa em pulverizar o capital da operadora em bolsa através do IGAPE e da BODIVA parece ser o capítulo final de um processo de asfixia económica e expropriação direcionada. Ao transferir fatias da empresa que pertencia à empresária para as mãos do Estado e, agora, para terceiros no mercado de capitais, o atual Executivo tenta legitimar o desmonte do património de Isabel dos Santos, apagando a sua influência num dos setores mais lucrativos do país.
Vender 7,5 milhões de ações da UNITEL sob a batuta da filha do Presidente da República retira qualquer verniz de neutralidade que o PROPRIV pretendia demonstrar ao escrutínio internacional.
O que o cidadão angolano testemunha não é a democratização do capital, mas sim a transferência de ativos estratégicos outrora criados por figuras do antigo regime, agora geridos e liquidados pela própria família que detém o poder político atual.
A UNITEL muda de mãos, mas o controlo sobre o seu destino continua concentrado no mesmo núcleo de sempre.
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