O chefe da Direcção Principal do Pessoal e Quadros (DPPQ) do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), vice-almirante Gonçalo Lourenço de Sousa, é suspeito de liderar um alegado esquema de corrupção e inserção de efectivos “fantasmas” nas folhas salariais das FAA, segundo informações apuradas no âmbito de uma auditoria interna realizada em janeiro deste ano.
De acordo com dados constantes da investigação, o processo de auditoria detectou o processamento salarial de 3.232 efectivos sem efectividade confirmada, entre militares e pessoal civil, com impacto financeiro estimado em mais de 2,8 mil milhões de kwanzas.
As averiguações foram desencadeadas após o surgimento de indícios de inconsistências entre os efectivos registados administrativamente e os militares efectivamente existentes nas unidades, estabelecimentos e órgãos das FAA.
Segundo fontes ligadas ao processo, o vice-almirante Gonçalo Lourenço de Sousa foi constituído arguido no âmbito do Processo-Crime n.° 04/2026, por suspeitas de responsabilidade administrativa e criminal relacionadas com a gestão de efectivos e o processamento de salários.
A investigação aponta igualmente para a inclusão indevida de 84 militares falecidos nas folhas salariais, com pagamentos efectuados entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, além da permanência no sistema remuneratório de efectivos licenciados à reserva, reforma e disponibilidade.
Os auditores detectaram ainda alegados casos de duplicidade salarial associados à utilização de Bilhetes de Identidade duplicados, cenário que, segundo fontes próximas do processo, apresenta semelhanças com esquemas fraudulentos investigados anteriormente no âmbito da denominada “Operação Caranguejo”.
A auditoria refere também alterações consideradas “anómalas” na estrutura interna da Direcção Principal do Pessoal e Quadros nos últimos dois anos, incluindo o afastamento de responsáveis das áreas de registo e informática sem fundamentação pública conhecida.
Os substitutos nomeados teriam, segundo relatos internos, pouca experiência técnica e histórico de alegada má conduta profissional, situação que gerou preocupações no seio da instituição militar.
As mesmas fontes denunciam ainda a concentração de funções consideradas sensíveis em oficiais próximos da actual direcção, reduzindo os mecanismos internos de controlo e fiscalização anteriormente existentes.
O contacto com o Ministério das Finanças para validação de questões salariais terá passado a ser controlado exclusivamente pelo chefe da DPPQ e por dois oficiais de confiança, nomeadamente os capitães Meudinho Henriques e Fábio Edmundo da Silva, afastando outros técnicos do processo de validação e submissão das folhas salariais.
No âmbito da denominada operação de “verificação de efectivos”, desencadeada para localizar alegados 30 mil efectivos fantasmas no Exército, fontes ouvidas pela investigação apontam para um elevado nível de secretismo nos trabalhos da comissão encarregue das averiguações, limitando o acesso de gestores e militares aos processos de esclarecimento e validação de dados.
Entre as irregularidades mencionadas consta ainda o alegado caso de uma cidadã apontada como familiar do vice-almirante Sousa, que, segundo relatos internos, auferia salário correspondente ao posto de coronel sem possuir essa patente, tendo recebido, alegadamente, o equivalente a 30 salários numa única operação relacionada com férias.
Os factos apurados pela auditoria apontam para falhas graves nos mecanismos de controlo interno e na actualização dos dados administrativos das FAA, num processo que continua sob investigação das autoridades competentes.
Com/NMC
