O dever de um Governo é comunicar com os cidadãos. Não é fabricar cidadãos, inventar órgãos de comunicação social, ocultar a origem de mensagens políticas ou manipular secretamente a opinião pública.
No entanto, uma nova investigação do Citizen Lab da Universidade de Toronto apresenta provas preocupantes de que a BlackCore, uma empresa israelita de operações de influência por encomenda, ministrou formação a funcionários do Governo angolano que incluiu uma operação de influência digital supervisionada.
As conclusões devem desencadear uma investigação imediata e independente em Angola. Não se trata apenas de uma história sobre relações públicas questionáveis. Está em causa a possível utilização da autoridade do Estado e de recursos públicos para construir sistemas encobertos de persuasão política, num momento em que o país se aproxima das eleições gerais de 2027. Se não forem esclarecidas, estas revelações aprofundarão a desconfiança pública e tornarão ainda menos credível um espaço político já desigual.
O que o Citizen Lab revelou
O Citizen Lab identificou um subdomínio da BlackCore intitulado «Campanha do Governo Angolano». A página anunciava um curso de várias semanas destinado ao Governo angolano sobre narrativa, redação persuasiva, gestão de tráfego e operações nas redes sociais. O objetivo declarado era substituir «práticas amadoras de produção» por uma arquitetura profissional e escalável de comunicação do Estado. O programa proposto incluía campanhas reais na Meta e no TikTok.
Materiais posteriormente obtidos e analisados pelos investigadores parecem demonstrar que o programa foi muito além de uma formação convencional em comunicação. Segundo um relatório final da BlackCore, a iniciativa começou em 19 de janeiro de 2026 e decorreu durante mais de 14 semanas, terminando numa data não especificada de abril. Produziu mais de 40 conteúdos, incluiu a avaliação de pelo menos 24 publicações elaboradas pelos formandos e envolveu ativos digitais efetivamente utilizados.
No centro da atividade documentada encontrava-se a «Agita News», apresentada como um órgão de comunicação social, mas descrita pelo Citizen Lab como fictícia. Os conteúdos eram inicialmente publicados através de identidades digitais enganosas, apoiados por um sítio externo e amplificados por republicações em grupos do Facebook. A campanha media depois as visualizações, o tráfego e o envolvimento do público, ajustando a sua abordagem. Duas personagens identificadas no Facebook, «Dorivaldo Kiala» e «Gancho Atalaia», aparentavam ser fictícias e provavelmente utilizavam imagens de perfil geradas por inteligência artificial.
Este é o mecanismo habitual de uma operação de influência encoberta: ocultar o patrocinador, fabricar uma aparência de autenticidade, distribuir mensagens coordenadas e converter a amplificação artificial numa perceção de apoio popular. Algumas publicações enganosas terão recebido cerca de 20 mil gostos, enquanto outras que permaneceram disponíveis se aproximaram posteriormente de 50 mil interações. Num país com cerca de seis milhões de utilizadores ativos do Facebook, estes números estão longe de ser irrelevantes.
As provas são graves e os seus limites importam
As conclusões devem ser apresentadas com rigor. O Citizen Lab não identificou os funcionários angolanos alegadamente formados, os formadores da BlackCore ou a instituição governamental que contratou ou pagou o programa. Os investigadores afirmam igualmente que não conseguiram confirmar de forma independente que a formação ocorreu. Contudo, depois de compararem o sítio da campanha, o relatório final, as datas, os produtos prometidos, os nomes utilizados nas contas e os ativos digitais, consideraram altamente provável que o programa tenha acontecido conforme descrito pela BlackCore.
Esta distinção é importante. Um escrutínio responsável não exige exageros. A infraestrutura documentada e os ativos corroborantes já são suficientemente graves para exigir respostas oficiais. Cabe agora às autoridades angolanas revelar se algum ministério, unidade da Presidência, órgão de segurança, empresa pública ou prestador de serviços contratou a BlackCore ou um intermediário local; quanto foi pago; que funcionários participaram; que dados foram recolhidos; e se a operação continua ativa.
Da comunicação pública à manipulação encoberta
Os Governos têm o direito de explicar as políticas públicas, corrigir erros factuais e adquirir publicidade claramente identificada. A comunicação democrática transforma-se em manipulação quando o Estado oculta a sua intervenção, faz-se passar por cidadãos ou meios de comunicação independentes e utiliza contas falsas coordenadas para criar a ilusão de apoio espontâneo. A diferença reside na transparência, autenticidade e responsabilização.
Uma campanha de informação pública identifica quem comunica e permite aos cidadãos avaliar a mensagem em conformidade. Uma operação de influência procura impedir essa avaliação. Trata as pessoas não como cidadãos capazes de formar juízos, mas como alvos cujas perceções podem ser moldadas sem o seu conhecimento. Quando funcionários públicos adquirem estas capacidades, a fronteira entre serviço público e vantagem partidária pode desaparecer rapidamente, sobretudo num sistema em que o partido no poder e o Estado há muito são difíceis de separar.
A própria linguagem comercial da BlackCore torna evidente o risco democrático. O Citizen Lab concluiu que a empresa promovia o «domínio do discurso», a amplificação artificial e operações destinadas a perturbar narrativas dissidentes. Mesmo que o programa angolano tenha sido formalmente apresentado como um conjunto de «campanhas positivas do Governo», a mesma infraestrutura pode ser reutilizada para abafar críticas, assediar opositores, distorcer o debate público ou fabricar consentimento. Uma ferramenta concebida para manipular a atenção não se torna democrática apenas porque a sua mensagem é positiva.
Um sistema mais amplo de controlo digital
As conclusões sobre a BlackCore não devem ser analisadas isoladamente. O espaço cívico digital de Angola já se encontra sob pressão devido a leis restritivas, processos relacionados com a expressão na Internet e à ampliação dos poderes estatais sobre as comunicações. A avaliação de 2025 da Freedom House classificou a Internet em Angola como apenas «Parcialmente Livre» e observou que a Lei de Segurança Nacional de 2024 permite restringir os serviços de telecomunicações em circunstâncias excecionais definidas de forma vaga, ao mesmo tempo que alarga os poderes de vigilância.
Em fevereiro de 2026, a Amnistia Internacional anunciou a primeira confirmação forense da utilização do programa espião Predator em Angola. O alvo foi o jornalista e defensor da liberdade de imprensa Teixeira Cândido, cujo telefone foi infetado com sucesso em maio de 2024, depois de um remetente, fazendo-se passar por estudante interessado, ter conquistado a sua confiança e enviado ligações maliciosas. A Amnistia não conseguiu atribuir o ataque a um cliente governamental específico, mas o caso demonstrou que uma tecnologia de vigilância mercenária chegou a Angola e foi utilizada contra um jornalista de destaque.
Em conjunto, estes casos revelam perigos complementares. O programa espião pode penetrar nas comunicações privadas de um crítico. As redes de influência encobertas podem contaminar o espaço público de informação em torno desse crítico. Uma vigia e intimida; a outra distrai, desacredita e fabrica narrativas concorrentes. Independentemente de terem ou não estado envolvidos os mesmos intervenientes, ambos os mercados oferecem a Governos poderosos um atalho para contornar a responsabilização democrática.
A contradição com a própria Lei Contra Informações Falsas de Angola
A alegada operação da BlackCore é especialmente preocupante quando confrontada com as normas estabelecidas pela própria Lei Contra Informações Falsas na Internet de Angola, a Lei n.º 6/26, de 4 de agosto de 2026. A legislação foi proposta pelo Executivo do Presidente João Lourenço e aprovada pela Assembleia Nacional com o apoio do MPLA, partido no poder. A votação final registou 105 votos a favor, incluindo os do MPLA, PRS e PHA, e 72 votos contra da UNITA. O MPLA defendeu a medida como uma importante proteção da ordem democrática, da estabilidade social e da integridade da informação no espaço digital.
Os métodos documentados pelo Citizen Lab assemelham-se estreitamente a condutas que a própria nova lei considera perigosas. A Lei n.º 6/26 define «conta inautêntica» como uma conta criada ou utilizada para disseminar desinformação ou assumir a identidade de terceiro com o propósito de enganar o público. Define «rede de disseminação artificial» como uma rede coordenada por pessoas, grupos, uma empresa ou um Governo para obter vantagens financeiras ou políticas. A lei proíbe ainda contas inautênticas, redes artificiais que propaguem desinformação e conteúdos patrocinados que não estejam claramente identificados.
A contradição é difícil de ignorar. O mesmo partido governante que apoiou uma lei apresentada como proteção contra a manipulação tem agora de responder a provas credíveis de que funcionários do Governo terão sido formados para utilizar personagens fabricadas, um órgão de notícias dissimulado e amplificação coordenada. Se a lei pretende proteger o processo democrático, em vez de policiar a crítica, os seus princípios devem aplicar-se às instituições do Estado e aos interesses do partido no poder com, pelo menos, o mesmo rigor aplicado a jornalistas, ativistas, figuras da oposição e cidadãos comuns.
A cronologia exige precisão jurídica. O programa da BlackCore terá decorrido entre janeiro e abril de 2026, enquanto a Lei n.º 6/26 foi publicada em 4 de agosto de 2026. A lei não pode, portanto, ser simplesmente aplicada retroativamente para impor responsabilidade por condutas anteriores. No entanto, a contradição política e institucional permanece, e qualquer continuação, conservação ou reativação da rede depois da entrada em vigor da lei justificaria escrutínio ao abrigo das suas disposições. O Governo deve revelar se a operação prosseguiu para além de abril, se as suas contas ou os seus dados permanecem sob controlo oficial e como pretende cumprir a exigência legal de identificar transparentemente os conteúdos patrocinados pelo Estado e os conteúdos pagos.
O que está em causa nas eleições de 2027
As próximas eleições gerais de Angola decorrerão num ambiente de informação altamente interligado, marcado pela crescente utilização da inteligência artificial e por salvaguardas frágeis contra comportamentos inautênticos coordenados. A competição política não pode ser livre e justa se as instituições do Estado dispuserem de redes ocultas e geridas profissionalmente, capazes de se fazer passar por eleitores, criar falsas marcas de comunicação social e amplificar narrativas preferenciais em grande escala.
