Agências portuguesas mostram contas em Portugal, mas escondem dimensão dos negócios em Angola

Agências portuguesas de comunicação, marketing e relações públicas com presença ou actividade em Angola divulgam em Portugal dados financeiros, rankings de facturação e resultados anuais, mas mantêm pouca ou nenhuma informação pública sobre o volume real dos seus negócios no mercado angolano.

Entre as empresas identificadas estão a CV&A, LPM, Lift Consulting, Born, BA&N, YoungNetwork, JLM&A/Kreab e GCIMEDIA/Meraki. Algumas operam directamente em Luanda, enquanto outras actuam através de parcerias locais, sobretudo nas áreas de comunicação institucional, reputação, marketing, publicidade, gestão de crise e public affairs.

Em Portugal, a realidade é diferente. A CV&A, por exemplo, apareceu em rankings do sector com mais de 10 milhões de euros em vendas e lucros superiores a 2,4 milhões de euros. A LPM declarou uma facturação de 11,3 milhões de euros em 2023 e valor semelhante em 2024. A Lift Consulting também surge em rankings portugueses com receitas acima dos cinco milhões de euros.

Já em Angola, onde estas empresas trabalham num mercado sensível, marcado por contratos institucionais, banca, energia, telecomunicações, eventos públicos e comunicação de reputação, os valores não aparecem discriminados. Não há dados públicos consistentes sobre quanto facturam, que contratos detêm, quais os seus principais clientes ou que receitas são geradas localmente.

A opacidade contrasta com o discurso de transparência adoptado por várias destas agências no mercado português. Em Angola, a presença é frequentemente apresentada em termos institucionais — escritórios, parcerias, expansão lusófona ou experiência africana — mas sem a mesma abertura sobre resultados, contas, contratos ou margens.

O caso levanta uma questão relevante para o sector: se estas empresas conseguem divulgar receitas, lucros e rankings em Portugal, por que razão não existe o mesmo grau de transparência sobre os negócios realizados em Angola?

A falta de informação é ainda mais sensível porque o mercado angolano de comunicação e publicidade movimenta valores significativos e envolve, muitas vezes, clientes próximos do Estado, empresas públicas, grandes grupos económicos e sectores regulados. Num ambiente onde reputação e influência são parte central do negócio, saber quem paga, quanto paga e por que serviços paga torna-se uma questão de interesse público.

Especialistas do sector consideram que Angola continua a ser um mercado atractivo para agências estrangeiras, sobretudo portuguesas, pela proximidade linguística, pelas ligações empresariais históricas e pela procura crescente de serviços de comunicação estratégica. Mas a ausência de dados financeiros separados impede perceber se Angola é apenas uma extensão operacional ou uma fonte relevante de lucros para estes grupos.

A investigação sugere, por agora, uma conclusão clara: em Portugal, as agências portuguesas prestam contas ao mercado; em Angola, preferem operar numa zona cinzenta, onde há presença, clientes e influência, mas pouca informação pública sobre os ganhos reais.

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