A encruzilhada do poder no processo de sucessão no MPLA (Parte II)

Carlos Alberto

Jornalista e Director do Portal “A DENÚNCIA”

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21Mai26

No dia 19 de Maio, enquanto a Subcomissão de Candidaturas se empenhava em divulgar uma nota destinada a informar que o candidato à liderança do partido, João Manuel Gonçalves Lourenço, era o único que, até ao momento, formalizara a candidatura à sua própria sucessão, o seu mandatário, João de Almeida Martins “Ju Martins”, encontrava-se ocupado em actividades de natureza bem menos institucional. Eram precisamente 12 horas e 23 minutos, conforme mostra um dos vídeos vazados no dia 20, numa coincidência temporal que transformou o debate político numa espécie de tragicomédia audiovisual. Enquanto uns tratavam da liturgia burocrática da continuidade do poder, outros pareciam empenhados em oferecer ao país uma interpretação particularmente física do conceito de “mobilização política”. E assim, entre comunicados oficiais e imagens impróprias para menores institucionais, o MPLA acabava por produzir talvez a metáfora mais exacta da sua actual crise interna: um partido dividido entre a solenidade do discurso e a promiscuidade dos bastidores.

Como já referimos no texto anterior sobre A encruzilhada do poder no processo de sucessão no MPLA – Parte I, com a imagem de João Lourenço, esta segunda parte, com a imagem do mandatário do presidente cessante do MPLA, confirma que a candidatura de João Lourenço levanta inevitáveis questões de ética, precisamente por ter entrado primeiro como árbitro para agora pretender actuar simultaneamente como jogador. Ainda por cima, “jogador único”, podendo, se quiser, marcar golo nas duas balizas e anulá-los igualmente, pois o apito do árbitro está, pelo que tudo indica, no seu bolso. Job Capapinha fez questão de elaborar uma “Nota Pública”, com erros básicos de português, para afirmar que João Lourenço é o único candidato até agora, como se isso constituísse alguma novidade. A nota da Subcomissão tenta transmitir a ideia de um ascendente natural do presidente cessante sobre os demais concorrentes, colocando-o numa posição privilegiada antes mesmo de a corrida começar verdadeiramente. Porém, antes ainda de se questionar por que razão ao presidente cessante não foi exigida a apresentação prévia da sua intenção de candidatura, como ocorreu com António Venâncio, Francisco Higino Lopes Carneiro e José Carlos de Almeida, eis que surge o elemento grotesco da narrativa: o seu mandatário-mor aparece associado a uma espécie de curta-metragem de cópula partidária que, involuntariamente, acaba por simbolizar a própria lógica de funcionamento do sistema. A famosa “bicefalia martiniana” deixa então de ser apenas metáfora política para adquirir contornos quase anatómicos, revelando que, em certos círculos do poder, duas cabeças podem coexistir harmoniosamente desde que nenhuma delas esteja particularmente preocupada com a ética.

Já não está apenas em causa a entrada em vantagem do candidato João Lourenço no jogo político, sem passar pelo crivo das exigências impostas aos demais concorrentes, nem o facto de, em apenas dois dias e durante um fim-de-semana, ter conseguido apresentar onze mil subscrições. O que está igualmente em causa é a pornografia institucional em que estas práticas acabam inevitavelmente mergulhadas, transformando procedimentos políticos em espectáculos degradantes de penetração burocrática, subcomissões obedientes e candidaturas bicefálicas. Afinal, não há Estatutos, nem Regulamentos do MPLA, nem Lei dos Partidos Políticos, nem Constituição que pareçam impor limites minimamente respeitáveis ao exercício arbitrário do poder. A pergunta deixada no final do primeiro ensaio torna-se, por isso, ainda mais pertinente: será o presidente cessante capaz de violar tudo sem se preocupar minimamente com a imagem que ainda lhe resta neste fim de mandato? Neste momento, a questão adquire um duplo sentido particularmente desconfortável, porque, se por um lado deve ser questionada a integridade moral do seu mandatário-mor, por outro lado torna-se igualmente legítimo perguntar com que autoridade ética João Lourenço ainda considera possuir condições políticas para permanecer no jogo.

Também temos questionado esta prática recorrente de exposição pública de dirigentes do MPLA e do Governo por meio das redes sociais, utilizando nomes fictícios, páginas obscuras e perfis duvidosos como “Joana Clementina” e “Makamavulo”, sem que exista qualquer investigação séria sobre a identidade dos seus autores. Isto demonstra não apenas uma falha grave dos serviços de inteligência e de investigação criminal, mas sobretudo uma lógica de funcionamento em que tais estruturas parecem servir de instrumento de protecção e agenciamento deste tipo de conspurcação pública da reputação alheia. Se os serviços de inteligência não conseguem detectar preventivamente ameaças desta natureza, capazes de expor dirigentes do país ao ridículo internacional, então dificilmente se poderá afirmar que servem o Estado.

João Lourenço está mal acompanhado ou conhece perfeitamente a origem destes vazamentos? Seja qual for a resposta, a vulnerabilidade do sistema está exposta e temos alertado para isso. Não por acaso, este será um dos temas centrais da Quinta Temporada do Caso Miala a ser lançada brevemente em adenuncia.ao, sobre o qual recaem denúncias relacionadas com um alegado “Plano Macabro” de desestabilização do país, acompanhado de evidências e denúncias feitas por Miguel Ângelo, académico e quadro sénior do SINSE, que até hoje jamais foram devidamente esclarecidas ou frontalmente desmentidas.

Do mesmo modo, as instituições competentes, designadamente a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Assembleia Nacional, a Presidência da República e a própria Direcção do MPLA, nunca se dignaram a responder às perguntas formalmente endereçadas pelo Portal “A DENÚNCIA”, nem à participação criminal apresentada pelo jornalista Carlos Alberto junto da PGR e posteriormente noticiada. O silêncio institucional começa a deixar de parecer prudência para assumir contornos de alinhamento tácito, ou talvez de uma sofisticada fuga para a frente, típica de sistemas políticos incapazes de enfrentar os próprios fantasmas. Enquanto isso, as práticas desviantes, a promiscuidade política e os ruídos digitais envolvendo dirigentes do partido e do Governo continuam a assumir relevância cimeira, agora enriquecidos por uma inesperada dimensão cinematográfica: um gabinete institucional transformado em cenário de bacanal político no exacto momento em que se tenta vender ao país a solenidade da “nobre” candidatura do mais prócere candidato à presidência do MPLA. A pergunta final, dolorosa mas inevitável, permanece suspensa sobre o país como uma sombra incómoda: quem governa realmente Angola? Um homem com um corpo e duas cabeças ou um sistema inteiro entregue à bacanalização institucional do poder?

Carlos Alberto

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