Cidadãos, activistas e organizações da sociedade civil dos municípios de Cafunfo, Luremo e Cassanje-Calucala cancelaram a manifestação que estava prevista para sábado, 29 de Agosto, contra a actuação da empresa privada de segurança Kadyapemba-Segura, na sequência de um processo de diálogo com autoridades locais, a Sociedade Mineira do Cuango (SMC), Ministério Público e órgãos de segurança.
Num comunicado divulgado pelos promotores da iniciativa, em posse do *Imparcial Press*, os organizadores justificam a decisão com a abertura de um processo de diálogo pelos administradores municipais de Cafunfo e Luremo, respectivamente Bonege Calala e Victória Diones, considerando que a negociação permite procurar respostas para as denúncias de mortes, tortura e agressões atribuídas a efectivos da empresa sem expor a população a novos riscos.
Segundo o documento, representantes da sociedade civil e de organizações de defesa dos direitos humanos exigiram, durante o encontro, a retirada da Kadyapemba das zonas em causa, a responsabilização civil e criminal dos alegados envolvidos nas mortes, o fim das agressões contra cidadãos e apoio às famílias das vítimas.
A acta do encontro, segundo os promotores da manifestação, regista igualmente um compromisso da direcção da Sociedade Mineira do Cuango para, a curto prazo, rescindir o contrato com a Kadyapemba, enquanto a empresa de segurança terá assumido a revisão dos seus procedimentos operacionais e o reforço da formação dos efectivos em matéria de respeito pelos direitos humanos.
Os organizadores afirmam que vão acompanhar a execução dos compromissos assumidos e que a suspensão da manifestação não representa o abandono das reivindicações.
Conforme o comunicado, caso não sejam cumpridas as medidas acordadas até 27 de Agosto de 2027, os movimentos e cidadãos envolvidos deverão reunir-se novamente para decidir os próximos passos.
A Kadyapemba-Segura presta serviços de segurança no perímetro da Sociedade Mineira do Cuango, na província da Lunda-Norte, uma relação contratual que está no centro de controvérsias após mortes de mais de dez de garimpeiros nas áreas diamantíferas.
Em Abril de 2021, dois garimpeiros morreram durante um incidente envolvendo efectivos da Kadyapemba dentro da área restrita da concessão da SMC.
A própria Sociedade Mineira do Cuango confirmou as duas mortes e exigiu à empresa de segurança a realização de um inquérito interno, a suspensão dos elementos envolvidos e o seu encaminhamento às autoridades competentes.
A própria Kadyapemba reconheceu, num direito de resposta divulgado na altura, a ocorrência de dois homicídios praticados por colaboradores da empresa, apresentou desculpas às famílias e afirmou ter uma política de tolerância zero relativamente a maus-tratos, violência e desrespeito pela vida humana.
Um dos casos envolveu Nelito Caxita, morto a tiro em 26 de Abril de 2021. Segundo documentação divulgada na altura, a própria empresa entregou 250 mil kwanzas à família, num documento que identificava o efectivo Joaquim Kudiva como responsável pela morte.
O outro caso envolveu Romeu Bernardo, de 47 anos, que, segundo a documentação divulgada pela Kadyapemba, morreu depois de ter sido agredido fisicamente por um dos seus colaboradores. A empresa também entregou 250 mil kwanzas aos familiares.
Os acontecimentos de 2021, contudo, foram acompanhados por outras denúncias. O regedor-adjunto de Ngonga Ngola, citado na altura por órgãos de comunicação social, afirmou que só naquele mês tinham sido registadas sete mortes na região.
Em Abril de 2021, que os dois garimpeiros tinham sido mortos a tiro por seguranças da Kadyapemba, tendo o director da Sociedade Mineira do Cuango confirmado as mortes e indicado que os agentes envolvidos tinham sido detidos.
Em Julho de 2018, o jornal _Folha 8_ noticiou a morte de Amissy Katanga Muyaya, de 43 anos, baleado numa zona de garimpo em Cafunfo, atribuindo o disparo a um efectivo da Kadyapemba. A publicação referia ainda outras mortes ocorridas no primeiro semestre daquele ano, mas sem identificar todas as vítimas.
Em Abril de 2019, a _Rádio Angola_ noticiou a morte de João Cassule Munguenji, de 38 anos, que familiares e moradores atribuíram a agressões de seguranças da Kadyapemba depois de o cidadão ter sido abordado num posto de controlo.
A versão policial, segundo a mesma publicação, apontava para uma queda durante uma tentativa de fuga, versão contestada pela família.
Em Julho do mesmo ano, Alegria Kavula, de 25 anos, morreu durante uma operação contra garimpeiros junto à ponte do Tximango, segundo testemunhas citadas pela _Rádio Angola_, que atribuíram os disparos a seguranças da Kadyapemba.
Um mês depois, em Agosto de 2019, Bernardo Miguel, de 39 anos, morreu afogado no rio Cuango durante uma operação que envolveu efectivos das Forças Armadas Angolanas e seguranças da Kadyapemba.
Conforme informações, o homem foi atingido por uma pedra quando tentava fugir para o rio. O caso foi também referido no relatório de direitos humanos do Departamento de Estado norte-americano relativo a Angola.
A relação da Kadyapemba com episódios de violência não se limita às mortes. Ainda em 2019, foram igualmente noticiadas agressões contra garimpeiros, incluindo o caso de Alexandre Lola, que afirmou ter sido atingido com coronhadas e golpes de catana por elementos da empresa.
Em 2021, Jonilson Joaquim, de 33 anos, denunciou ter sido amarrado e agredido, incluindo uma tentativa de estrangulamento que atribuiu a um segurança identificado como “Diabo”.
Já em Outubro daquele ano, Zito Muassefo, de 28 anos, denunciou ter sido baleado pelas costas por alegados efectivos da Kadyapemba quando se encontrava numa zona de garimpo.
Em 2022, Desirei Calulameia, de 52 anos, foi atingido por dois tiros que atribuiu a um segurança da Kadyapemba, durante uma operação contra garimpeiros no município de Xá-Muteba. O homem ficou gravemente ferido.
No mesmo ano, outro garimpeiro, Tito Chiquito, de 34 anos, denunciou ter sido violentamente agredido com uma catana, tendo sofrido ferimentos graves.
Em Agosto de 2025, Tito Félix Quitumba, de 41 anos, foi encontrado morto numa área de exploração diamantífera da SMC, em Tximango. Familiares e testemunhas atribuíram a morte a seguranças da Kadyapemba, alegando que o homem tinha sido agredido e asfixiado.
Também em Março de 2025 foi noticiada a morte de Jorge José, de 22 anos, durante uma operação conjunta envolvendo elementos das FAA e a segurança da Kadyapemba.
Em Junho deste ano, dois jovens, Xavito Miranda Mateus, de 19 anos, e Yuri Rui André, de 21, morreram em circunstâncias que familiares e activistas associaram a operações de homens identificados como pertencentes à Kadyapemba.
Os corpos foram encontrados dias depois em águas do rio Cuango e de uma lagoa, respectivamente. No caso de Yuri, familiares contestaram a indicação inicial de afogamento como causa da morte.
No mês seguinte, um outro cidadão, Evaristo Milonga Paulo, de 36 anos, ficou gravemente ferido depois de, segundo testemunhas, ter sido atingido com uma pedra e posteriormente baleado por um segurança da Kadyapemba em Cafunfo.
O histórico de denúncias levou a que a questão da segurança nas zonas diamantíferas de Cafunfo e Xá-Muteba fosse incluída em estudos sobre direitos humanos na região.
Um estudo do Mosaiko Instituto para a Cidadania registou relatos de moradores sobre numerosas mortes e confirmou, com base em declarações da Sociedade Mineira do Cuango, os dois garimpeiros mortos por seguranças da Kadyapemba em Abril de 2021.
A recente mobilização popular coloca novamente em causa o modelo de segurança utilizado nas concessões diamantíferas da Lunda-Norte e, em particular, a actuação da Kadyapemba, que tem como missão contratual proteger o perímetro e o património da Sociedade Mineira do Cuango.
Os promotores da manifestação dizem pretender agora verificar se o compromisso anunciado pela SMC de rescindir o contrato será efectivamente concretizado e se as autoridades judiciais irão investigar as mortes e agressões atribuídas aos efectivos da empresa.
Até ao momento, não foram divulgados publicamente, de forma completa, os resultados dos processos judiciais relativos a todos os casos denunciados ao longo dos últimos anos.
A Kadyapemba, por seu lado, já afirmou anteriormente que não pactua com actos de violência e que aplica uma política de tolerância zero contra colaboradores envolvidos em maus-tratos ou violação da vida humana.
Imparcial Press
