Sem fábricas de processamento funcionais, país manda quase 2 mil toneladas de tomate para o ‘lixo’ em dois meses
DESPERDÍCIO. Com apenas uma fábrica de processamento de tomate em funcionamento entre as três unidades industriais identificadas, país continua a enfrentar dificuldades para transformar os excedentes agrícolas em produtos de maior conservação e valor comercial, numa situação agravada pela queda acentuada dos preços, falta de compradores e os habituais constrangimentos no escoamento da produção.
Por Alfredo Catuta
A falta de fábricas de processamento continua a contribuir para a perda de um total de 1700 toneladas de tomate no país, entre Agosto e primeiras semanas deste mês.
Além da insuficiência de capacidade de transformação industrial, as perdas de tomate no período resultam também da combinação entre a falta de compradores e as dificuldades de escoamento.
Conforme o levantamento do Valor Económico, os agricultores enfrentam dificuldades para comercializar a produção, conservar os excedentes e transportá-los para os principais centros de consumo.
No Zaire, vários produtores apontam perdas, em conjunto, de cerca de 100 toneladas, numa área de 100 hectares. No Bié, um total de cinco produtores afirmam ter perdido mais de 400 toneladas no período por falta de compradores, alegando que as praças e os circuitos tradicionais não conseguem absorver toda a produção.
A queda dos preços reflecte-se em vários mercados do país, com reduções que chegam a ultrapassar os 90%. Em Luanda, no mercado de Catinton, uma caixa de tomate que anteriormente era comercializada por 15 mil kwanzas passou para três mil kwanzas, uma redução de 80%, enquanto noutros registos do mesmo mercado o preço caiu de 12 mil para três mil kwanzas, menos 75%.
No mercado informal da capital, a descida foi ainda mais acentuada, de 45 mil para 2.500 kwanzas, equivalente a uma redução de 94,4%. No Bié, na Fazenda Vinevala, o preço recuou de 17 mil para cinco mil kwanzas, menos 70,6%, ao passo que, no mercado do Kawango, em Caxito no Bengo, uma caixa que custava 15 mil kwanzas passou a ser vendida por mil kwanzas, uma quebra de 93,3%. No Namibe, há registo de preços actuais entre 800 e mil kwanzas por caixa de 30 quilogramas. Contudo, sem um preço anterior confirmado para a mesma região, não é possível calcular com rigor a percentagem de queda.
300
Toneladas de tomate, perdas estimadas no Uíge, volume ligeiramente inferiores perdas estimadas pelo conjunto de produtores que constituem a Unaca
MEMORIZE
– A falta de fábricas de processamento e de mercados capazes de absorver o excedente, somando-se a problemática das estradas provocam prejuízos enormes todos os anos aos produtores de tomate
Por exemplo, no Uíge, foram reportadas perdas superiores a 300 toneladas, enquanto a União Nacional dos Camponeses de Angola (Unaca) também reporta mais de 300 toneladas perdidas. Já nas províncias do Cuanza-Sul, Cuanza-Norte, Benguela e Namibe, as perdas são estimadas em quase 600 toneladas, no conjunto.
FÁBRICAS SEM FUNCIONAMENTO PLENO
A falta de fábricas operacionais agrava o desperdício, uma vez que reduz as alternativas para transformar os excedentes em polpa ou concentrado de tomate.
No Namibe, a fábrica de concentrado de tomate do Giraul de Baixo, adquirida pelo grupo empresarial SANEP no âmbito do Programa de Privatizações (Propriv), “continua sem reunir as condições necessárias para iniciar a actividade, devido à falta de equipamentos destinados à produção de polpa de tomate”, segundo fonte ligada ao Gabinete Provincial da Agricultura da província.
O projecto prevê uma capacidade de produção de cerca de 10 mil toneladas de polpa de tomate por ano, além de câmaras frigoríficas para a conservação da matéria-prima e do produto transformado.
O investimento está avaliado em cerca de 600 milhões de kwanzas e prevê, numa primeira fase, a criação de 50 postos de trabalho.
Os detalhes do projecto de reactivação foram apresentados publicamente em Junho de 2024, após reuniões entre a direcção da empresa e o Governo Provincial do Namibe, liderado por Archer Mangueira. Na altura, Edilson Tchipia, identificado como secretário-geral do grupo SANEP, apresentou informações sobre os planos para a unidade industrial.
Em Setembro de 2024, os constrangimentos ao funcionamento da fábrica, associados à falta de equipamentos e aos atrasos no arranque da actividade, foram também referidos pelo então director do Gabinete Provincial da Agricultura do Namibe, Zonza Puissa. A inoperância da unidade foi apontada como um dos factores que limitavam a capacidade de processamento e comercialização da produção agrícola na província.
Na Huíla, a fábrica da Matala também se encontra sem actividade, apesar das intervenções realizadas anteriormente. A falta de articulação na cadeia de fornecimento é apontada entre os constrangimentos que impossibilitam o aproveitamento da capacidade instalada.
Em Benguela, a fábrica de concentrado de tomate e transformação de frutas do Dombe Grande, gerida pela empresa Dombe, do Grupo Adérito Areias, foi inaugurada oficialmente a 7 de Fevereiro de 2026, depois de ter sido adquirida em Fevereiro de 2022, no âmbito do Propriv. A unidade tem uma capacidade anunciada para processar até 120 toneladas de tomate por dia, o equivalente a cerca de 30 mil toneladas por ano.
Apesar de estar em funcionamento, a fábrica do Dombe Grande ainda não estará a conseguir absorver volumes suficientes para evitar as perdas de tomate na província de Benguela durante os períodos de maior produção, segundo produtores.
À falta de fábricas de processamento e de mercados capazes de absorver os excedentes, soma-se o problema recorrente das estradas degradadas, que dificulta o escoamento da produção agrícola. Em várias regiões do país, os produtores enfrentam constrangimentos para transportar as colheitas das explorações até aos principais centros de consumo.
Valor Econômico
