EMPREGO. Investigadores questionam a metodologia do inquérito e defendem perguntas mais simples para captar atividades informais como zunga, roubo/arte ou lavra. Enquanto isso, emprego informal cresceu em 365 mil pessoas no segundo trimestre, contra apenas 45 mil novos empregos formais.
Por Guilherme Francisco
Os números oficiais do emprego em Angola continuam a mostrar uma realidade difícil de conciliar com o que se observa nas zonas urbanas e rurais do país. No segundo trimestre, dos mais de 10 milhões de pessoas com 15 ou mais anos foram classificadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) como fora da força de trabalho, por não estarem disponíveis para trabalhar ou não procurarem ativamente emprego.
Ao todo, são 10.044.345 milhões de pessoas, menos 3,9% do que os 10.452 milhões registados no trimestre anterior. Apesar da redução, o número representa cerca de 45% da população com idade para trabalhar e levanta dúvidas entre investigadores e economistas sobre a capacidade do actual inquérito para captar a realidade do mercado de trabalho angolano.
A classificação contesta, segundo especialistas, com o que se passa nos bairros das grandes cidades e nas zonas rurais, onde milhares de pessoas recorrem a actividades informais para garantir algum rendimento.
Para o Grupo de Investigação da Universidade Lusíadas [GILUS], uma das explicações poderá estar nas alergias introduzidas pelo INE nas perguntas em forma como as perguntas são interpretadas pelos entrevistados.
“Isso parece bem claro nas respostas de menos de um terço dos inquiridos que não trabalham, mas 45% declararam não procurar emprego, mas estava disponível e não desejava trabalhar”, observa o centro.
Os investigadores consideram que pode existir um entendimento generalizado de que determinada actividade, como zunga, roubo ou lavra constitui emprego, o que acaba por realizar as respostas positivas sobre a participação no mercado de trabalho.
“Deve haver densidades de opções em cada pergunta, complicação da resposta, e o conceito de emprego e/ou de exploração de uma actividade ser muito robusto, lotado, etc”, defendem.
A seguir liderada por Teotonio Carvalho sugere que a pergunta de trabalho seja simplificada e que se narre a realidade económica das famílias sobre, por exemplo, se a pessoa tentou ganhar algum dinheiro na semana anterior a actividade.
“Notemos 50% da nossa pessoas não completa os estudos. Sem terem emprego, sem procurarem emprego e sem precisarem, sem procurarem uma actividade inferior a si”, questiona o centro.
Para os investigadores, os resultados apresentados pelo INE não reflectem claramente aquilo que acontece nos bairros e no mundo rural.
“Precisamos é de ver o que se passa nos nossos bairros e no mundo rural onde toda a gente, com poucas excepções, trabalha ou está a trabalhar para ganhar alguma coisa”, defenderam uma simplificação das perguntas utilizadas no inquérito.
*Indicadores sobre o mercado de trabalho no II trim. 2025*
*23.006.410* – População com 15 ou mais anos
*10.044.345* – População fora da força de trabalho
*2.790.821* – População desempregada
*10.171.244* – População empregada
*2.126.162* – Emprego formal
*8.145.082* – Emprego informal
*INFORMAL SUSTENTA MERCADO DE TRABALHO…*
A dinâmica do emprego informal ajuda a perceber a complexidade do mercado de trabalho angolano.
No segundo trimestre, o número de pessoas ocupadas no sector informal somaram-se 365.126, passando para 8.145 milhões. O crescimento resulta do peso que actividades não abrangidas pelo emprego formal continuam a ter na geração de rendimentos e sobre a vida das famílias.
Calculado pelo INE como emprego, o sector informal representa a maior porção da população empregada. No total, a população empregada é de 10.171.244 milhões de pessoas, mais 4,8% do que no trimestre anterior.
Já o emprego formal registou um crescimento modesto. Nos três meses, foram contabilizados mais 43.078 empregos formais, elevando o total para 2.126 milhões.
A diferença entre os dois segmentos económicos para cada novo emprego formal criado no período, foram criados cerca de 12 pessoas no emprego informal.
*…DESEMPREGO TAMBÉM AUMENTA*
O número de desempregados também registou uma subida significativa. Entre Abril e Junho, os desempregados aumentaram 7,6%, para 2.790.821 de pessoas.
Os números devem, contudo, ser lidos com alguma cautela dada a utilização pelo INE, que distingue entre desempregados e pessoas que estão fora da força de trabalho.
No primeiro caso, são os que, não estando ocupados, empregaram ou estão disponíveis para trabalhar e devem de integrar a categoria estatística de desempregados.
Valor Econômico
