ANÁLISE. FSDEA já realizou 130 milhões de dólares e ainda pode injectar cerca de 190 milhões de dólares. Sonangol tem cerca de 2,4 milhões de dólares em capital e 91,6 milhões de dólares em suprimentos. Grupo Opaia, detentor de 61% do projecto, garante ter realizado o seu equity e diz que ainda não utilizou a Garantia Soberana. Somados, o financiamento bancário anunciado e a exposição pública potencial cobrem cerca de 85% do investimento estimado de USD 2,6 mil milhões.
_Por César Silveira_
A exposição financeira do Estado angolano à construção da fábrica de fertilizantes AMUFERT, projectada pelo empresário Agostinho Kapaia, pode chegar a cerca de 764 milhões de dólares, considerando os recursos públicos já directamente identificados, os compromissos ainda por realizar e a Garantia Soberana associada ao financiamento do projecto. A conta inclui cerca de 224 milhões de dólares já identificados em capital e suprimentos, acrescendo ainda 190 milhões de dólares que o Fundo Soberano de Angola (FSDEA) ainda deverá realizar e uma garantia de Estado de até 350 milhões de dólares. Ou seja, se por um lado a soma de cerca de 550 milhões de dólares, em que é necessário considerar o financiamento potencialmente contingente futuro e risco contingente.
Avaliada actualmente em cerca de 2,6 mil milhões de dólares, o projecto com cerca de 2,6 mil milhões de dólares, projectado na sua estrutura accionista o Grupo OPAIA, liderado por Agostinho Kapaia, detém 61%. Assim, os accionistas públicos representam 39% do capital da Amufert, participação que, tomando como referência o custo actual estimado do projecto, equivale economicamente a cerca de 1,014 mil milhões de dólares.
*DÍVIDA COBRE MAIS DE METADE DO PROJECTO*
Por um lado, o projecto conta com uma facilidade de financiamento bancário de cerca de 1,4 a 1,45 mil milhões de dólares, valor que representa aproximadamente 54% a 56% do investimento total estimado em 2,6 mil milhões de dólares. Por outro, os 39% dos detidos pelo FSDEA e pela Sonangol correspondem a cerca de 1,4 a 1,45 mil milhões de dólares.
Agostinho Kapaia, CEO da OPAIA – Foto DR
*2,6* Projecto: USD mil milhões
*1,4* -1,45 mil milhões USD – dívida
*1,15* -1,2 mil mil milhões US parcela restante
*39%* Públicos: USD 1,014 mil milhões
*61%* Participação do Grupo Opaia
respondem, tomando como referência o custo actual do projecto, a cerca de 1,014 mil milhões de dólares. Esses valores, portanto, apontam que o investimento previsto e retirado se divide em dívida financiada por financiamento bancário depois considerado e componente de divisão.
Com efeito, ao forem considerados os 2,6 mil milhões de dólares cerca de 1,4 a 1,45 mil milhões de dólares em dívida de financiamento bancário, permanece uma parcela de aproximadamente 1,15 a 1,2 mil milhões a ser coberta por capital próprio e outras fontes.
A proximidade entre os 1,014 mil milhões de dólares correspondentes aos 39% públicos e os 1,15 a 1,2 mil milhões de dólares necessários para o equilíbrio da dívida e relevância permite questionar se a participação do FSDEA e da Sonangol não responde à fonte integral dessa parcela. A questão justifica-se visto que a estrutura detentora de equity da OPAIA e a desconhecimento da AMUFERT, a desconhecida.
*OS USD 224 MILHÕES JÁ IDENTIFICADOS*
Cálculos de Valor Económico, com base nos diferentes instrumentos de financiamento e investimento conhecidos, fixam em cerca de 224 milhões de dólares a exposição pública directa já quantificada.
Por um lado, o FSDEA materializou em 2025 a sua participação na AMUFERT com uma realização de 130 milhões de dólares. A instituição clarifica esse montante como pouco mais de dois quintos do total comprometido com o projecto. Contas feitas, o compromisso do Fundo aproximadamente em cerca de 320 milhões de dólares, ficando por realizar perto de 190 milhões de dólares.
Por outro lado, a instituição justifica o investimento com a criação de valor na cadeia industrial, visando fortalecer a cadeia de abastecimento agrícola, reduzir a dependência de importações e promover a produtividade nacional.
Uma segunda exposição pública no projecto da via da Sonangol, detentora de 10% de participação que no final de 2025 estava contabilizada em cerca de 2,17 mil milhões de kwanzas, cerca de 2,4 milhões de dólares.
Paralelamente, a Sonangol Gas Natural e Energias Renováveis tinha 83,7 mil milhões de kwanzas em suprimentos, equivalente a cerca de 91,6 milhões de dólares concedidos à AMUFERT para a construção da fábrica. Ou seja, até final de 2025, a petrolífera tinha contabilizado cerca de 2,4 mil milhões de dólares pela participação accionista e 91,6 milhões em financiamento através de suprimentos.
Portanto, somando os 130 milhões de dólares do FSDEA, os cerca de 2,4 milhões correspondentes à participação da Sonangol e os 91,6 milhões de dólares em suprimentos, chega-se a aproximadamente 224 milhões de dólares em exposição directa já identificada.
Mas há mais. Uma das principais componentes da exposição futura do Estado é a parcela ainda por realizar pelo FSDEA. Os USD 130 milhões já realizados representam pouco mais de dois quintos do compromisso assumido. Tomando essa proporção como referência, os cálculos do Valor Económico fixam em cerca de 320 milhões de dólares o compromisso total, deixando cerca de 190 milhões de dólares por realizar.
*SONANGOL: CAPITAL E SUPRIMENTOS*
No caso da Sonangol, a sua posição combina participação accionista e financiamento do projecto. A participação de 10% corresponde a cerca de 260 milhões de dólares em valor económico do projecto. Em 2025, porém, o investimento da Sonangol encontrava-se contabilizado em 2,17 mil milhões de kwanzas, aproximadamente 2,4 milhões de dólares.
A diferença entre os 260 milhões de dólares correspondentes à participação proporcional no custo do projecto e os 2,4 mil milhões contabilizados fixa-se em cerca de 257,6 mil milhões e o capital que a petrolífera ainda deve realizar. Porém, considerando os diferentes envolvimentos da empresa no projecto, a realização da diferença poderá ser feita de diferentes formas, incluindo pelos suprimentos realizados.
No final de 2025 estes suprimentos concedidos pela petrolífera à Amufert estavam avaliados em cerca de 91 milhões de dólares como resultado de um aumento considerável face aos cerca de 4,6 mil milhões de kwanzas (cerca de 5,01 milhões de dólares) para 83,7 mil milhões (cerca de 91,6 milhões de dólares).
A exposição da petrolífera poderá, contudo, ser superior ao que está reflectido nestes valores. Além da participação como accionista e como financiador do projecto, a Sonangol tem ainda uma posição na estrutura de financiamento. Na operação anunciada pelo Afreximbank, a Sonangol Natural Gas (Sonangas) aparece, juntamente com o Grupo OPAIA, como strategic sponsor.
O banco anunciou em 2024 uma facilidade de financiamento de 1,4 mil milhões de dólares, assumindo o papel de Mandated Lead Arranger da componente de dívida e apoiando também a mobilização de capital próprio.
Posteriormente, a operação passou a ser apresentada com um valor de 1,45 mil milhões de dólares. A informação mais recente divulgada pelo Ministério dos Recursos Minerais Petróleo e Gás indica, contudo, que a documentação necessária para o financial close da operação ainda se encontrava em formalização. A presença da Sonagas como strategic sponsor levanta, por isso, uma questão adicional sobre a exposição da petrolífera ao projecto. Os documentos públicos consultados não permitem determinar se existem compromissos financeiros adicionais da Sonangol no âmbito da operação do Afreximbank.
*AMUFERT JÁ DESEMBOLSOU USD 477 MILHÕES*
Até 31 de Julho de 2026, a AMUFERT reportava cerca de 477 milhões de dólares já desembolsados no projecto, cujo investimento previsto é actualmente estimado em 2,6 mil milhões de dólares. O montante desembolsado representa cerca de 18,3% do custo total estimado.
Os 477 milhões superam em aproximadamente 253 milhões de dólares os cerca de 224 milhões de dólares de exposição pública directa já identificada através do FSDEA e da Sonangol. Essa diferença, contudo, não pode ser atribuída automaticamente ao OPAIA. Pode incluir equity privado, financiamento bancário já disponibilizado ou outras fontes de financiamento.
Questionado sobre a contribuição do accionista privado, o Grupo OPAIA assegurou que já realizou o seu equity e que essa realização era necessária para que o financiamento do projecto pudesse ser aprovado. Porém, não revelou o montante do capital próprio já realizado, remetendo a comprovação para a documentação existente junto do banco financiador. O grupo acrescentou que começou a investir na AMUFERT em 2018.
*GARANTIA SOBERANA DE USD 350 MILHÕES*
A terceira grande componente da exposição pública é a Garantia Soberana. O Despacho Presidencial n.º 209/22 autorizou uma garantia a favor do Grupo OPAIA, destinada a cobrir 19,89% do valor do financiamento para a implementação da fábrica de ureia no Soyo.
O limite autorizado é de 350 milhões de dólares, com uma primeira tranche de 80 milhões de dólares prevista para 2022. O Grupo OPAIA assegura, contudo, que a garantia soberana ainda não foi utilizada.
Assim, os 350 milhões de dólares devem ser tratados como dinheiro já desembolsado pelo Estado. Trata-se de uma exposição contingente, que poderá transformar-se numa obrigação financeira caso a garantia seja accionada.
Valor Econômico
