Escândalo Financeiro no BAI: Empresário Eritreu Isayas Berhe que pediu 13 milhões de dólares ao Banco BAI para investir num projecto “falhado” continua impune

Apesar das investigações em curso pela PGR, SIC e AGT, o principal suspeito permanece em liberdade no Talatona, havendo indícios de um forte esquema de branqueamento de capitais com recurso a criptomoedas. O Processo contra cidadão eritreu Isayas Berhe que pediu 13 milhões de dólares ao Banco BAI para investir num projecto “falhado” sem pernas para andar

Um intrincado esquema de engenharia financeira e suspeitas de fraude que envolveu um crédito bancário de cerca de 13 milhões de dólares junto do Banco BAI continua sem desfecho na justiça angolana. Mais de um ano após o início das diligências legais, o principal visado, o empresário eritreu Isayas Berhe, continua a residir pacificamente em Angola, num condomínio em Talatona, mantendo a possibilidade de se ausentar do país a qualquer momento.

O “Golpe” dos 13 Milhões

A polémica estalou quando o empresário, com pouco tempo de operação no mercado angolano, foi privilegiado em 2024 com um crédito avultado na ordem dos 13 milhões de dólares pelo Banco BAI. O montante destinava-se, alegadamente, a um investimento num projecto agrícola sob a chancela da empresa Kaheel Agriculture Machinery, LDA.

No entanto, as investigações apontam que, logo após a aprovação e recepção do crédito — intermediado também através da empresa Shaikh Ahmed Dalmook Juma Al-Maktoum —, o dinheiro foi rapidamente pulverizado e distribuído por múltiplas contas domiciliadas em diversos bancos comerciais. Até ao momento, não há registo de qualquer reembolso do crédito contraído.

Rota do Dinheiro: Criptomoedas e Mulas

Documentos e extractos bancários revelam movimentações financeiras atípicas e milionárias. Apenas numa das operações detectadas, o suspeito transferiu 188 milhões de Kwanzas de uma só vez para a conta de uma outra empresa. As operações foram frequentemente realizadas via BAI-DIRECT, a partir de contas associadas ao empresário (como a de IBAN 0040.0000.1064.8487.1017.1), que continuam a receber avultadas somas de dinheiro.

As autoridades policiais investigam agora o destino final destes fundos. Segundo dados apurados, o capital é posteriormente convertido e enviado para carteiras de criptomoedas — uma metodologia sofisticada de branqueamento de capitais cada vez mais utilizada por redes de empresários estrangeiros em Angola. Noutros casos, os valores são retirados fisicamente do país de forma manual, recorrendo ao uso de “mulas”.

O Cerco Institucional e o Ultimato ao Banco BAI

O caso já se encontra na alçada das mais altas instâncias judiciais do país, embora a sua tramitação levante questões sobre a morosidade da justiça. No dia 19 de Junho de 2025, a Procuradoria-Geral da República (PGR) remeteu à Direcção de Combate aos Crimes Fiscais e Financeiros do Serviço de Investigação Criminal (SIC) o processo-crime n.º 1894/025-I-PGR. O documento, assinado pelo Magistrado do Ministério Público, Afonso Samora André, arrola como arguidos Isayas Berhe e as referidas empresas.

A gravidade do esquema forçou a PGR a tomar medidas mais drásticas junto da banca. Em Julho de 2025, através do processo-crime nº 38372/025-LDA, o Presidente do Conselho de Administração do Banco BAI foi notificado e orientado a fornecer, num prazo rigoroso de 72 horas, toda a documentação que viabilizou o crédito associado à empresa Kaheel Farming Services Angola.

Dívidas, Fugas e a Intervenção da AGT

O cerco aperta-se também do lado fiscal. A Administração Geral Tributária (AGT) e os órgãos de defesa e segurança abriram uma investigação paralela sobre as operações da empresa.

A AGT recepcionou recentemente uma denúncia formal (registada sob o nº TBMD86) que acusa as empresas do empresário eritreu de emissão de facturas falsas, criando uma engenharia contabilística que não condiz com a sua real situação financeira.

Para agravar o cenário, Isayas Berhe deixou um rasto de dívidas junto de trabalhadores e fornecedores angolanos. Foi precisamente a pressão destes credores locais que o forçou a abandonar a sua residência no luxuoso hotel EPIC SANA, em Luanda, refugiando-se actualmente num condomínio no município de Talatona, de onde aguarda, em total liberdade, o desenrolar de um processo que continua “sem pernas para andar”.

NMCRIME

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