Empresa ligada a Bento Kangamba facturou quase 11 milhões de dólares em oito meses no fornecimento de produtos higiénicos ao ISSFAA

Uma empresa ligada ao general angolano Bento dos Santos Kangamba recebeu, em apenas oito meses, perto de 10 mil milhões de kwanzas do Estado angolano no âmbito de contratos de fornecimento de produtos higiénicos ao Instituto de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas (ISSFAA), num caso que levanta suspeitas de sobrefacturação e favorecimento em contratos públicos.

Segundo o portal Na Mira do Crime, a empresa Patrucha – Comércio Geral, Importação e Exportação, Lda., criada em 2023, facturou 9.949.574.003 kwanzas (equivale a 10.896.000 de dólares norte-americano) entre 13 de Março e 28 de Novembro de 2025, através de 26 pagamentos efectuados pelo ISSFAA, organismo tutelado pelo Ministério da Defesa, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria.

Os pagamentos dizem respeito ao alegado fornecimento de produtos higiénicos e material gastável, embora fontes citadas pelo jornal junto do Ministério das Finanças admitam a existência de “sobrefacturação significativa” nas operações.

De acordo com a fonte primária, até 04 de Abril deste ano, o general Bento Kangamba figurava formalmente entre os sócios da empresa, ao lado de Patrick Mingedi Pembele, Ladislau Henderson Sardinha Dias, Inês Maria Ramos de Abreu Mingedi e Ricardina Teresa Lopes, conforme registos do Guiché Único da Empresa consultados pelo jornal.

No entanto, numa alteração societária efectuada no início de Abril, o nome do general desapareceu da estrutura formal da sociedade, permanecendo apenas Patrick Mingedi Pembele e Inês Maria Ramos de Abreu Mingedi como sócios da empresa.

A alteração surge já depois da execução dos contratos milionários, circunstância que poderá alimentar suspeitas de tentativa de distanciamento formal da empresa após a circulação de informações sobre os pagamentos.


O caso levanta igualmente questões sobre os critérios de adjudicação utilizados pelo Ministério da Defesa, uma vez que a empresa foi constituída há menos de dois anos e conseguiu rapidamente assegurar contratos públicos de valor elevado num sector particularmente sensível da administração do Estado.

A investigação refere ainda que os pagamentos ocorreram durante o período em que João Ernesto dos Santos “Liberdade”, actual ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República, exercia funções de influência na estrutura de tutela do sector da Defesa.

Até ao momento, não são conhecidos concursos públicos, relatórios de execução contratual ou auditorias independentes que permitam verificar a real dimensão dos fornecimentos efectuados pela empresa Patrucha.

Especialistas em governação e transparência consultados por diferentes órgãos angolanos têm alertado repetidamente para os riscos de captura do Estado por elites político-militares, sobretudo em sectores ligados à defesa, segurança e contratação pública, onde persistem elevados níveis de opacidade.

O caso poderá aumentar a pressão sobre o Executivo angolano, que desde 2017 tem colocado o combate à corrupção no centro do discurso político, mas continua confrontado com denúncias recorrentes de contratos públicos envolvendo figuras próximas do aparelho do Estado e das estruturas militares.

Imparcial Press

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