Os materiais de construção ficaram 5,17% mais caros no último ano, apesar da desaceleração registada nos últimos meses. Tijolos, betão e alumínio lideram as subidas, num mercado que poderá beneficiar do investimento público em período pré-eleitoral, enquanto a construção privada enfrenta dificuldades devido à perda do poder de compra das famílias.
Hermenegildo Ferreira
O preço dos materiais de construção em Angola continua a aumentar, embora a um ritmo bastante inferior ao registado há um ano. De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes a Setembro de 2026, o Índice de Preços dos Materiais de Construção (IPMC) registou uma subida homóloga de 5,17%, contra 13,63% no mesmo mês de 2025, uma desaceleração de 8,46 pontos percentuais. Em termos mensais, o crescimento foi de 0,24%, o valor mais baixo dos últimos 13 meses.
Esta evolução não significa, contudo, que construir esteja mais barato. Os preços continuam a aumentar, apenas o fazem mais lentamente. Entre Dezembro de 2025 e Setembro deste ano, o crescimento acumulado foi de 3,11%, mantendo a pressão sobre os orçamentos das empresas e dos particulares. A desaceleração tem sido relativamente consistente, com a inflação homóloga a passar de 12,02% em Dezembro para 10,82% em Janeiro, 8,73% em Março e 6,85% em Maio, chegando aos actuais 5,17%. Uma evolução positiva que, contudo, também poderá reflectir uma procura menos dinâmica.
Tijolos, betão e alumínio lideram aumentos
A análise dos diferentes materiais revela comportamentos distintos. Os tijolos registaram o maior aumento homólogo entre os principais grupos, com 9,78%, seguidos do betão pronto, com 9,61%, e do alumínio, com 7,98%. Também o aço, com 6,65%, e as vigas, vigotas e ripas, com 6,49%, apresentaram crescimentos superiores à média do sector. São aumentos relevantes porque atingem materiais utilizados em diferentes fases da construção, desde a estrutura dos edifícios até aos acabamentos.
O caso dos tijolos é significativo. Apesar de liderarem os aumentos, a subida de 9,78% representa praticamente metade dos 18,48% registados em Setembro do ano passado. O mesmo acontece com o betão pronto, cuja inflação passou de 13,20% para 9,61%, embora continue a ser um dos materiais com maior pressão sobre os custos. No acumulado dos primeiros nove meses de 2026, o betão aumentou 6,38%, mais do dobro da média global de 3,11%.
O aço, fundamental para a construção de edifícios, pontes e outras infra-estruturas, apresenta uma desaceleração expressiva, passando de uma inflação homóloga de 18,04% para 6,65%. No entanto, os varões de aço, utilizados nas estruturas de betão armado, registaram uma subida de 8,77%, superior à média do grupo. Já os tubos de aço aumentaram apenas 4,43%, depois de terem apresentado uma inflação de 34,04% há um ano, demonstrando que a evolução não é uniforme dentro da mesma família de materiais.
Também o alumínio apresenta um comportamento relevante, com a inflação homóloga a cair de 17,82% para 7,98%. No caso da madeira e contraplacado, o aumento baixou de 19,43% para 5,68%, enquanto as vigas, vigotas e ripas passaram de 24,10% para 6,49%. Entre os materiais mais utilizados na construção habitac ional, os blocos apresentam uma das maiores desacelerações, de 24,38% para 4,75%, embora tenham registado em Setembro uma subida mensal de 0,55%, a segunda maior entre os principais grupos.
O cimento, outro material essencial, apresenta uma evolução mais favorável. O grupo dos cimentos e aglomerantes registou uma subida homóloga de apenas 2,49%, contra 9,48% há um ano. Considerando exclusivamente o cimento, o aumento foi de 2,54%. A areia subiu 5,61%, a pedra britada e o mármore 6,30% e as tubagens e acessórios de plástico 4,78%, bastante abaixo dos 12,71% registados há um ano. Nos acabamentos, as tintas aumentaram 10,73%, os vernizes 6,65% e os diluentes apenas 2,42%. Nenhum dos principais grupos de materiais registou uma redução homóloga dos preços.
Importa distinguir os materiais que mais encarecem daqueles que mais influenciam o índice global. O aço e os cimentos e aglomerantes representam, em conjunto, 57,47% da ponderação do IPMC. Em Setembro, o aço foi responsável por 0,11 ponto percentual da subida mensal de 0,24%, enquanto os cimentos e aglomerantes e os blocos contribuíram com 0,04 ponto percentual cada. Os três grupos explicaram, assim, cerca de 79% do aumento mensal dos preços.
Construção pública poderá compensar dificuldades do sector privado
A evolução dos preços acontece num momento em que a construção civil poderá beneficiar de um novo ciclo de investimento público. Com as eleições gerais de 2027 no horizonte, existe a possibilidade de aceleração de projectos de infra-estruturas, reabilitação de estradas, equipamentos sociais e outras obras com maior visibilidade pública.
O risco é que um eventual aumento da actividade pública não corresponda necessariamente a uma recuperação sustentada do sector. A concentração de investimentos em determinados períodos pode criar emprego, estimular a produção nacional de materiais e dinamizar as empresas construtoras, mas também gerar desequilíbrios quando os projectos terminam ou surgem dificuldades de tesouraria em face dos normais atrasos de pagamento por parte do Estado. A dependência das encomendas públicas continua a representar uma vulnerabilidade para muitas empresas.
Do lado privado, os desafios são diferentes. A perda acumulada do poder de compra das famílias, os salários que não acompanham a evolução dos preços e as dificuldades de acesso ao crédito limitam o investimento em habitação. Mesmo com uma inflação dos materiais mais moderada, o custo final de uma casa continua a incorporar despesas com mão-de-obra, transporte, terrenos, equipamentos e financiamento. Para os promotores imobiliários, o problema é também comercial: construir implica mobilizar capital num mercado onde a capacidade de compra dos potenciais clientes permanece limitada.
Um mercado equilibrado necessita de investimento privado, crédito habitacional acessível e maior previsibilidade económica. A desaceleração dos preços é positiva, mas insuficiente. O verdadeiro indicador de recuperação não será apenas a quantidade de obras públicas lançadas antes das eleições, mas a capacidade de criar um mercado sustentável. Caso contrário, poderemos voltar a ter mais obras, sem necessariamente termos mais famílias com capacidade para comprar casa.
Os tijolos registaram o maior aumento homólogo entre os principais grupos, com 9,78%, seguidos do betão pronto
Considerando exclusivamente o cimento, o aumento foi de 2,54%. A areia subiu 5,61% e o mármore 6,3%
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