Angola ‘torra’ 1,16 mil milhões USD em importações de óleo de palma enquanto produção nacional espera por crédito

Angola ‘torra’ 1,16 mil milhões USD em importações de óleo de palma enquanto produção nacional espera por crédito

FINANCIAMENTO. Produção nacional procura ganhar espaço num mercado dominado ainda pela importação. Registos comerciais apontam para pelo menos 166 toneladas de óleo de palma bruto e respectivas fracções enviadas de Angola para a República Democrática do Congo num movimento que ocorre de forma informal.

_Por: Alfredo Culanga_

Vários produtores nacionais de óleo de palma aguardam o desembolso de financiamentos do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), estimados em centenas de milhões de kwanzas, para ampliar a produção, reforçar a capacidade de processamento e iniciar a transformação do óleo bruto em produto refinado.

O dinheiro é apontado pelos produtores como a peça que falta para transformarem negócios ainda de pequena escala em unidades com alguma capacidade industrial, numa expectativa que surge num mercado em que Angola continua a depender de óleo alimentar importado, apesar de já existirem produtores nacionais com matéria-prima, clientes e capacidade para aumentar a oferta. Os dados oficiais apontam para uma despesa de mais de 1,1 mil milhões de dólares com a importação do produto.

Um dos empresários é Faustino Diniz, director do Óleo de Palma Toda Angola, que espera obter 50 milhões de kwanzas, num processo submetido ao BDA. Começou o negócio com cerca de 2 milhões de kwanzas em 2019 e estima que o investimento acumulado tenha atingido actualmente cerca de 80 milhões de kwanzas. A actividade começou de forma artesanal, mas a empresa adquiriu equipamentos e dispõe actualmente de cinco máquinas de produção e três de filtragem, além de equipamentos de enchimento e selagem.

A empresa trabalha com matéria-prima proveniente do Cuanza-Sul, onde detém uma área de quatro hectares, e aguarda por financiamento para a compra de equipamentos, para reforçar a capacidade e avançar para uma operação mais industrial. O objectivo do financiamento é aumentar a produção e criar condições para iniciar o processo de refinação.

João Alberto, proprietário da Óleo de Palma Nacional, aguarda, por sua vez, por 35 milhões de kwanzas do BDA para dinamizar o negócio e avançar para a transformação do óleo. A necessidade de financiamento enquadra-se no mesmo desafio enfrentado por outros produtores, que passa por aumentar a capacidade de produção e processamento para deixar uma actividade de pequena escala e caminhar para uma estrutura industrial, num projecto que prevê refinar cerca de 200 mil toneladas do produto em 3 anos.

Já Bernardo Maludi, proprietário da Óleo para o País, espera 50 milhões de kwanzas. O financiamento deverá permitir reforçar a actividade, aumentar a capacidade produtiva e criar condições para iniciar igualmente o processo de refinação de mais de 300 toneladas em cada quatro anos.

Os três produtores dizem ter já submetido os respectivos processos de financiamento ao BDA e aguardam pela disponibilização dos créditos há mais de um ano.

Desde 2020, ano em que começaram a ser divulgados os dados do Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (Prodesi), até aos primeiros sete meses de 2026, Angola importou 84.252 toneladas de óleo de palma, com uma factura acumulada de cerca de 1,16 mil milhões de dólares.

Angola dispõe da Refitex, em Luanda, com capacidade anunciada para processar cerca de 500 toneladas por dia de óleo de palma, soja e girassol, e da Rafinole, com capacidade de aproximadamente 400 toneladas diárias. No papel, as duas unidades somam cerca de 900 toneladas de capacidade de processamento por dia, mas os produtores questionam se existe matéria-prima nacional suficiente para alimentar regularmente essa estrutura.

“Não faz sentido termos refinarias com capacidade instalada e, ao mesmo tempo, continuarmos a gastar milhões de dólares a importar óleo”, defende João Alberto, que aponta o acesso ao financiamento, à mecanização, à terra e aos insumos como alguns dos principais obstáculos à expansão da produção nacional industrial.

MERCADO EXISTE, MAS PARTE É INFORMAL
O óleo de palma produzido em Angola chega à vizinha República Democrática do Congo, onde é muito utilizado na cozinha. Os registos comerciais dos produtores apontam para pelo menos 166 toneladas anuais de óleo de palma bruto e respectivas fracções enviadas de Angola, embora os produtores garantam que grande parte do movimento ocorre de forma informal e, por isso, não é captada pelas estatísticas oficiais. O produto atravessa a fronteira através de comerciantes e pequenos operadores, sem integrar necessariamente uma cadeia de exportação formal.

Para os produtores, a procura na RDC representa uma oportunidade de expansão num momento em que Angola continua a depender fortemente das importações para abastecer o mercado interno. A formalização desse comércio poderia abrir espaço para contratos regulares de fornecimento, melhorar a organização da cadeia e criar condições para que pequenos produtores passem a integrar circuitos comerciais mais estáveis.

O Cuanza-Sul é apontado pelos produtores como uma das zonas com potencial e presença relevante na produção de óleo de palma no país, sendo de lá que provém parte da matéria-prima utilizada por uma das empresas.

3 Produtores nacionais reclamam de falta de financiamento para expansão da produção, quantidade de tomate produzido em Luanda e Icolo e Bengo.*

*Volume de óleo de palma importado desde 2020 até a Julho de 2026*
PERÍODO IMPORTAÇÕES (TONELADAS) VALOR DAS IMPORTAÇÕES (USD)
2020 186.679 206.089.000
2021 111.352 135.750.000
2022 191.265 328.170.000
2023 132.179 174.888.000
2024 115.137 131.049.000
2025 43.258 104.830.000
2026 até Jul 34.490 84.250.000
Total 2020-Jul.2026 824.321 1.165.004.791

Valor Econômico

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