O mais recente Boletim Estatístico de Controlo de Concentrações da Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC) confirma uma tendência que se vinha a acentuar: em 2025, 93% dos actos de concentração notificados em Angola tiveram como adquirentes empresas de origem internacional.
Dos 15 actos notificados ao longo do ano, apenas um envolveu capital nacional — o consórcio formado pela Griner, Cimenfort e Mercons, que adquiriu a CIF Ciment/Logística no sector de materiais de construção, numa operação registada em Outubro.
Os restantes 14 actos tiveram adquirentes provenientes de oito países: França, Alemanha, Omã, Irlanda, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Espanha e, numa operação conjunta, Irlanda e Reino Unido. Os Emirados Árabes Unidos e o Reino Unido destacaram-se com três operações cada, seguidos da França, Alemanha, Irlanda e Omã, com duas cada.
A proporção de 93% de adquirentes internacionais é um dos registos mais elevados desde que a ARC começou a publicar estes dados, em 2019, e reflecte em parte a natureza dos sectores mais activos. O petróleo e gás concentrou 27% dos actos notificados, e o sector mineiro 20% — indústrias historicamente dominadas por operadores multinacionais com capacidade financeira e técnica para executar transacções de grande escala. Das sete operações nestes dois sectores, nenhuma envolveu um adquirente angolano.
A ausência quase total do empresariado nacional levanta questões que vão além da leitura dos números. Entre os factores mais apontados estão o acesso limitado a financiamento de longo prazo para operações de fusão e aquisição, a ainda incipiente cultura de crescimento por aquisição entre os grupos empresariais angolanos, as exigências regulatórias que elevam os custos de transacção e a concorrência directa com multinacionais que dispõem de estruturas jurídicas e financeiras consolidadas. É significativo que a única operação com adquirente nacional tenha exigido a junção de três empresas em consórcio — sugerindo que a articulação colectiva pode ser o caminho possível para o empresariado local competir num mercado dominado por players globais.
Os dados admitem duas leituras. O forte interesse de adquirentes internacionais pode ser interpretado como sinal de confiança no mercado e no ambiente regulatório angolano — a diversidade geográfica dos investidores, com presença europeia e do Médio Oriente, indica que Angola continua no radar de diferentes centros financeiros globais. Mas a concentração quase exclusiva do lado comprador em mãos estrangeiras suscita igualmente questões sobre transferência de valor: em muitas destas operações, os activos transaccionados — concessões petrolíferas, participações em empresas mineiras, infraestruturas logísticas — são recursos estratégicos cuja propriedade migra para fora do perímetro do capital nacional.
A ARC sublinha que o processo de análise regulatória é uniforme, independentemente da proveniência das partes. Mas a questão que os dados de 2025 colocam não é de tratamento regulatório — é de política económica: que instrumentos existem, ou devem ser criados, para que o sector privado angolano tenha condições de participar, como adquirente, nas grandes operações que moldam a estrutura do seu próprio mercado? Os números não respondem. Mas tornam a pergunta cada vez mais difícil de ignorar.
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