Engenheiro agrónomo fala, em entrevista à revista Economia & Mercado, sobre a importância dos fertilizantes e os desafios da indústria em Angola.
Para Fernando Pacheco, o País importa quantidades insuficientes de fertilizantes, sofre com a carência de laboratórios e depende de projectos antigos de fábricas que pouco avançaram. Defende investimentos em programas estruturantes que incluam não apenas fábricas e misturadoras, mas também laboratórios de análise para garantir o controlo de qualidade. Sugere ainda a institucionalização de subsídios aos agricultores para aumentar a produção e garantir a segurança alimentar.
Qual é a importância dos fertilizantes para os solos angolanos?
Os fertilizantes são o alimento das plantas. Podem ser simples ou compostos e as suas características variam consoante as culturas e os solos. Quando falamos de fertilizantes em Angola, temos também de tentar perceber que os nossos solos não são bons para a agricultura, ao contrário do que diz a propaganda.
Propaganda?
É importante frisar isso por que existe muita propaganda, muitas vezes veiculada por agentes externos interessados em determinados negócios em Angola. Cheguei a ouvir um embaixador a afirmar numa audiência com o senhor Presidente da República, que Angola tinha os solos mais férteis do mundo, o que não é verdade. Por outro lado, há empresários que dizem que não existem solos maus, que o solo se pode construir. Quando dizem isso, referem-se aos fertilizantes, mas esquecem que, se um solo precisa de grandes quantidades de nutrientes, é porque não é naturalmente bom. Se fosse, não precisaria de tanto. Por isso, esta questão dos fertilizantes deve ser encarada com base no conhecimento.
De que forma o conhecimento deve ser aplicado no uso dos fertilizantes?
A questão do conhecimento é central em Angola. Para muitos angolanos, excepto os mais avançados tecnologicamente, fertilizantes significa 12-24-12. Essa composição foi amplamente utilizada no período colonial, sobretudo no Huambo e no Planalto Central, onde os solos apresentavam maiores carências. Os agricultores familiares da região foram, inclusive, dos primeiros a adoptar o uso generalizado de fertilizantes, em alguns casos antes dos próprios agricultores portugueses. Por essa razão, ainda hoje, no Huambo, falar de fertilizante é falar de 12-24-12. Este entendimento, porém, é limita do e incorrecto. Os fertilizantes podem apresentar diferentes composições como 15-15-15 ou 10-15-20, que variam consoante a cultura e o tipo de solo. Daí a importância fundamental da análise de solos.
Em plena sociedade de informação, um desconhecimento desses?
Sim, por isso insisto na importância do conhecimento. Sem ele, os problemas não se resolvem. Recentemente, no Huambo, alguns agricultores aplicaram fertilizante em excesso, pensando aumentar a produção, e o resultado foi negativo. Com uma análise de solos, os agricultores utilizariam apenas as quantidades recomendadas de cada nutriente, daí a importância das misturadoras.
Daí a questão dos laboratórios.
Sim. Nos primeiros anos após a paz, Angola dispôs de muitos recursos, mas gastou-se muito sem apostar em projectos estruturantes. Um erro grave, na minha opinião, foi o de não se ter investido na criação de laboratórios de análise de solos em todo o País. Não é possível fazer uma fertilização correcta sem análise prévia do solo. Antes de adquirir o fertilizante, é necessário saber de que nutrientes o solo precisa. Hoje, Angola enfrenta uma grande carência de laboratórios de análise de solos.
Mas o País dispõe de laboratórios, ainda que não nas condições ou na dimensão desejáveis… Não é esse o entendimento?
Pode haver alguns laboratórios, mas não são suficientes têm sempre a credibilidade necessária. Hoje ainda se recorre com frequência ao exterior, sobretudo à África do Sul, para a realização de análises de solos, o que não é cómodo, não só em termos do tempo, mas principalmente em termos do dinheiro que é preciso gastar para se fazerem análises de solos.
Para saber mais sobre a visão de Fernando Pacheco em relação aos desafios da indústria dos fertilizantes, o papel das misturadoras e as soluções que podem transformar o sector, leia a entrevista na íntegra na edição 257 da revista Economia & Mercado, já disponível em bancas.
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