Mas nos últimos dias, familiares e amigos voltaram a insistir. “Escreve sobre o Mupopo.”
Mupopo, aquela localidade no interior da Huíla, (Huíla minha terra natal que abandonei muito cedo a procura de oportunidades). Terra de gente simples, trabalhadora, resiliente. Terra que agora brilha, não pelo sol do sul, mas pelo ouro que jorra das suas entranhas.
Só que ninguém fala do que esse ouro tem custado.
Em conversa hoje, 11, com o meu pai, que vive num dos bairros do município da Matala, ouvi algo que me deixou profundamente abalado. O problema do Mupopo não é apenas a exploração do ouro. O problema é o que está por trás dele ou melhor, o que está por baixo da terra e também por baixo da dignidade humana.
Fala-se de mortes.
Fala-se de doenças.
Fala-se de feitiçaria.
Fala-se de prostituição, inclusive infantil.
Qualquer mulher que vá para aquela zona, casada ou solteira, acaba, muitas vezes, pressionada pelo ambiente degradado a submeter-se à prostituição. Não por escolha, mas por sobrevivência. O ouro, que deveria representar prosperidade, transformou-se em moeda de troca de corpos e consciências.
Há adolescentes que abandonam os pais em Quipungo, Lubango, Cacula, Caluquembe, Chicomba, Dongo, Matala, Jamba, Kuvango e até no Cuchi, já na província do Cubango. Abandonam as salas de aula. Trocam os cadernos por pás. Trocam sonhos longos por dinheiro rápido.
O mito instalado é perigoso: “Só consegue ouro quem recebe feitiço.”
A superstição mistura-se com a miséria. Jovens entram “normais” e regressam perturbados. Alguns nem regressam. Outros voltam diferentes, marcados psicologicamente, consumidos pelo ambiente hostil, pela frustração ou pela ilusão quebrada.
No meio disso tudo, não há água potável. Não há saneamento. Não há condições mínimas de vida. O que existe é um aglomerado humano movido pela esperança imediata e pelo desespero silencioso.
Sim, é verdade, alguns jovens conseguem ouro, vendem, compram carros, exibem sucesso instantâneo. E esse brilho alimenta o imediatismo. Cria a ilusão colectiva de que o caminho mais curto é o mais seguro. A imagem do carro novo fala mais alto do que o diploma que ficou por concluir.
E enquanto isso, empresas estrangeiras exploram ouro de forma ilegal, sem qualquer preocupação com o impacto social. Extraem riqueza e deixam crateras na terra e nas famílias.
Hoje, ouvi na Rádio Huíla/RNA, que o Governador da Huíla quer pôr fim a essa situação. Se assim for, que seja para ontem. Porque o que se passa no Mupopo já não é apenas garimpo. É uma crise social silenciosa. É uma bomba-relógio.
O ouro pode enriquecer cofres, mas está a empobrecer consciências.
Está a normalizar a prostituição infantil.
Está a banalizar a morte.
Está a alimentar superstições.
Está a desestruturar famílias.
E o mais grave, está a convencer uma geração inteira de que estudar é perda de tempo.
O Mupopo não precisa apenas de repressão policial. Precisa de presença do Estado. Precisa de escolas reforçadas, fiscalização séria, alternativas económicas, campanhas de sensibilização e responsabilização efectiva de quem explora ilegalmente.
Porque quando uma sociedade começa a aceitar que adolescentes abandonem a escola para procurar ouro em condições desumanas, já não estamos apenas diante de um problema económico, estamos diante de uma falência moral colectiva.
Escrevo hoje porque o silêncio também é cumplicidade.
Escrevo porque a Huíla é minha.
Escrevo porque o brilho do ouro não pode ofuscar a dor das mães.
O Mupopo não pode continuar a ser terra de ouro e cemitério de sonhos.
Joaquim Mussungo.
