Lisboa – A jornalista Sueli de Melo, chefe de redacção da Rádio Essencial, foi alvo de um acto de intimidação na tarde de 19 de Fevereiro, em Luanda, nas imediações da Urbanização Nova Vida, protagonizado por um homem que se identificou como alguém que teria recebido orientações para “fazer mal” a uma pessoa.
A jornalista foi abordada depois de ter regressado de uma farmácia aonde se deslocou nesse dia para adquirir medicamentos. Depois de ter entrado na viatura e quando já se preparava para sair, um homem de meia idade aproximou-se, dizendo-lhe que estavam a persegui-la há muito tempo e que a sorte dela foi ter estacionado naquele ponto para ir à farmácia. Antes mesmo de a jornalista responder, o homem indicou duas viaturas com vidros fumados que estariam supostamente envolvidas na perseguição à chefe de redacção da Rádio Essencial. As viaturas encontravam-se uma à frente e outra atrás do carro da jornalista.
Apavorada, Sueli de Melo confrontou o homem, perguntando-lhe directamente se teriam recebido ordens para matá-la, ao que o homem respondeu que a teriam confundido com outra pessoa. A jornalista perguntou então por que razão a haviam parado e abordado, depois de terem percebido que ela supostamente não era a pessoa que procuravam, ao que o homem respondeu apenas que queriam ter certeza.
Na mesma tarde, uma quinta-feira, a jornalista dirigiu-se à esquadra do Nova Vida, tendo sido obrigada a regressar no dia seguinte para concluir o registo da ocorrência. Até ao momento, não há informações sobre os resultados da possível investigação em curso.
A intimidação à jornalista ocorreu na mesma semana em que foi denunciada a utilização do spyware Predator contra críticos da governação, tendo sido confirmado pela Amnistia Internacional o caso do jornalista Teixeira Cândido, também advogado e antigo secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos.
Desenvolvimento por antigos agentes dos serviços secretos israelitas, o Predator, uma vez instalado no telemóvel, permite o acesso a todos os dados nele disponíveis e vai ao ponto de ligar a câmara e o microfone do aparelho, permitindo acesso completo e em tempo real à pessoa vigiada.
Apesar de o homem que intimidou Sueli de Melo ter dito que a confundiram com outra pessoa, o tipo de abordagem sugere que a jornalista foi o alvo ou que terá sido usada para se passar a mensagem a outras pessoas. “Se não fosse ela ou se não quisessem passar uma mensagem, simplesmente não teriam falado com ela, depois de perceberem que se tratava de outra pessoa”, comentou um especialista em Inteligência, convidado a comentar os factos. “É indiscutivelmente um acto de intimidação dirigido a ela ou a outras pessoas incómodas próximas dela”, afirma.
Em 2020, a jornalista Sueli de Melo e outros três colegas da mesma empresa (um jornalista da Rádio Essencial, um fotógrafo do Valor Económico e um motorista) foram detidos pela Polícia enquanto cobriam a manifestação do dia 24 de Outubro. Na altura, a jornalista e os seus colegas ficaram pelo menos três dias detidos, tendo sido libertados sem nenhuma explicação. Os meios da empresa, incluindo caça-palavras e câmaras fotográficas recebidos pela Polícia, nunca chegaram a ser devolvidos.
Jornalista há quase uma década, Sueli de Melo tem-se destacado como uma voz determinada e contundente, sendo conhecida particularmente pelas suas crónicas que abordam temas políticos no programa “Dias Andados”, às sextas-feiras na Rádio Essencial.
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