A origem e o percurso dos fundos associados ao empresário Agostinho Kapaia continuam a suscitar dúvidas no espaço público. Recentemente, o empresário inaugurou a fábrica OPAIA Motor, instalada nas antigas infraestruturas da CIF — China International Fund — que haviam sido recuperadas pelo Estado angolano ao general Helder Vieira Dias, conhecido como “Kopelipa”, no âmbito do processo de recuperação coerciva de activos conduzido pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Permanece, contudo, sem esclarecimento público o critério que determinou a cedência dessas instalações ao grupo empresarial de Kapaia.
Empresário e militante do Movimento Popular de Libertação de Angola, Kapaia ganhou destaque nos últimos meses ao intermediar a entrada de um banco alemão numa operação de financiamento à República de Angola. A operação gerou questionamentos, sobretudo por envolver fundos cuja proveniência e circuitos financeiros não foram detalhadamente explicados pelas partes envolvidas.
Segundo informações amplamente divulgadas, o Governo angolano terá atribuído, nos últimos dois anos, cerca de 323,5 milhões de euros ao Grupo OPAIA para a aquisição de 600 autocarros destinados ao transporte escolar público. Parte significativa dessas viaturas não terá sido entregue nos prazos previstos, facto que alimentou críticas e suspeitas quanto à execução contratual.
Circulam ainda alegações de que os montantes recebidos teriam sido aplicados em instrumentos financeiros junto de uma instituição bancária alemã, que posteriormente concedeu crédito ao próprio Estado angolano. Não existem, até ao momento, esclarecimentos oficiais detalhados que confirmem ou refutem integralmente esta versão, mas a narrativa tem reforçado o debate sobre a gestão e rastreabilidade dos fundos públicos.
Posteriormente, o mesmo banco terá financiado a recuperação da unidade industrial de montagem automóvel agora explorada pela OPAIA Motor — precisamente a infraestrutura antes integrada no universo empresarial associado ao general Kopelipa e entretanto recuperada pelo Estado.
No debate público, o nome de Agostinho Kapaia tem sido frequentemente comparado ao de Isabel dos Santos, figura central de múltiplas investigações judiciais relacionadas com alegadas práticas de peculato, fraude fiscal e gestão danosa de activos estatais. As comparações assentam sobretudo na proximidade entre grandes interesses empresariais e decisões políticas, bem como na atribuição de contratos públicos de elevado valor.
Outros casos empresariais, envolvendo grupos como a OMATAPALO e figuras como Luis Nunes, têm igualmente sido apontados como exemplos de um modelo de contratação pública marcado por ajustes directos e limitada transparência, levantando preocupações recorrentes sobre governação e accountability.
Até ao momento, não foi apresentada decisão judicial que impute responsabilidade criminal a Agostinho Kapaia relativamente aos factos acima descritos. Ainda assim, a ausência de informação pública detalhada sobre os critérios de adjudicação, a execução contratual e o circuito financeiro dos montantes envolvidos mantém abertas questões relevantes sobre a gestão de recursos públicos em Angola.
