RECADOS DA CESALTINA ABREU (19)
“Sob um bom governo, a pobreza é uma vergonha; sob um mau governo, a riqueza é uma vergonha” – Confúcio.
Hoje, trago esta mensagem de Con-fúcio (551 a.C. 479 a.C.) lem-brando-nos que a justiça social é, antes de tudo, uma responsabilidade do Estado. A sua reflexão sugere que, num governo justo, a pobreza constitui uma fa-lha de gestão, pois a organização política deveria garantir oportunidades para to-dos. Pelo contrário, em regimes ineficien-tes e corruptos, a riqueza acumulada tende a resultar de práticas desonestas, como a corrupção e o clientelismo.
Esta máxima sublinha a centralidade da questão distributiva na avaliação da quali-dade da liderança política. A pobreza não surge por acaso: é o produto de socieda-des marcadas por profundas desigualda-des de condições e de oportunidades. Eti-camente, um bom governo não “produz” pobreza. Na prática, porém, quem nasce pobre já parte em desvantagem, acumu-lando obstáculos ao longo da vida. Essas desvantagens limitam o desenvolvimento do capital humano, geram exclusão e ali-mentam sentimentos perversos de não pertença e de vergonha.
Como lembra Mia Couto, em “À porta da modernidade, há sete sapatos sujos que necessitamos descalçar” (oração de sa-piência na abertura do ano lectivo do ISC-TEM, Maputo, incluída no livro E se Obama fosse Africano? ), “quem deve sentir vergonha não é o pobre, mas quem cria a pobreza”. O autor vai mais longe ao afirmar que a pressa em ocultar a pobreza revela, ela própria, uma pobreza de espírito: vive-se tentando aparentar o que não se é, como se a pobreza fosse uma doença, quando na verdade é con-sequência de um sistema que suga até à medula.
Mia Couto chama ainda a atenção para uma forma de pobreza que escapa às es-tatísticas: a pobreza da reflexão sobre nós mesmos. A dificuldade em nos pen-sarmos como sujeitos históricos, capazes de sonhar e transformar a realidade, ali-menta a descrença e a resignação. Vale, por isso, perguntar: o que está a acontecer? O que é preciso mudar dentro e fora de África?
Saúde, cuidados e coragem para nos posi-cionarmos perante uma questão que a to-dos afecta.
Kandando daqui!
Kesongo
