O Grupo Carrinho passou a integrar a estrutura accionista do Banco de Fomento Angola (BFA), após adquirir 7,61% do capital social através da sua subsidiária financeira Congolian, no âmbito do processo de privatização realizado via bolsa em setembro de 2025.
A participação confere ao grupo direitos societários relevantes, incluindo assento e direito de voto em Assembleia Geral, e marca a consolidação da sua presença no sector bancário nacional, onde já detém o controlo do Banco de Comércio e Indústria (BCI) e do Banco Keve.
Segundo informação veiculada pela imprensa económica, a entrada do grupo no capital do BFA foi seguida de exigências de ajustamentos na governação da instituição, tendo-se registado a saída da então administradora financeira (CFO), Francisca Costa, e a nomeação de João Jesus, até então assessor do Conselho de Administração do BCI, banco maioritariamente detido pelo Grupo Carrinho.
Um banco associado ao antigo ciclo presidencial
O BFA é historicamente associado ao anterior ciclo de poder em Angola. Durante vários anos, a instituição integrou o universo empresarial ligado a Isabel dos Santos, filha do antigo Presidente da República José Eduardo dos Santos, tendo sido posteriormente objecto de reconfiguração accionista no contexto das medidas de recuperação, reorganização e privatização de activos promovidas pelo Estado angolano.
A entrada de um novo grupo privado nacional no capital do banco ocorre, assim, num quadro em que património anteriormente associado a figuras centrais do consulado de José Eduardo dos Santos passa a ser integrado em estruturas empresariais ligadas ao actual ciclo político.
Leitura pública sobre a transição de activos
No espaço mediático e no debate público, diversos analistas têm interpretado este movimento como parte de um processo mais amplo de transferência e redistribuição de activos estratégicos, nos quais património anteriormente controlado por personalidades próximas do antigo Presidente é progressivamente absorvido por grupos económicos frequentemente associados, em termos de percepção pública, ao actual poder executivo liderado por João Lourenço.
Sem que exista qualquer decisão judicial que estabeleça favorecimento ilícito, o Grupo Carrinho é recorrentemente associado, por órgãos de comunicação social e comentadores económicos, a interesses alinhados com o actual ciclo governativo, sobretudo em função do seu crescimento acelerado em sectores estratégicos — alimentação, logística e banca — durante a presente legislatura, bem como da sua participação em processos de privatização e reestruturação empresarial conduzidos pelo Estado.
Concentração bancária e escrutínio institucional
Com a presença simultânea no BCI, no Banco Keve e agora no BFA, o Grupo Carrinho passa a deter uma posição de relevo no sistema financeiro nacional. Esta concentração tem sido acompanhada por escrutínio regulatório, incluindo análises da Autoridade Reguladora da Concorrência, e alimenta o debate sobre a necessidade de reforço dos mecanismos de transparência, prevenção de conflitos de interesses e prestação de contas no sector bancário.
Especialistas em governação sublinham que a alternância política não elimina, por si só, os riscos de captura do Estado por interesses privados, defendendo que a credibilidade do processo de reformas depende da clareza dos critérios legais e da igualdade de acesso às oportunidades económicas, independentemente do ciclo presidencial em vigor.
