Kapaia assume antiga fábrica automóvel apreendida ao general Kopelipa no âmbito da recuperação de ativos do Estado

O grupo empresarial Opaia, liderado por Agostinho Kapaia, inaugurou em janeiro de 2026 a Opaia Motors, uma unidade de montagem de viaturas ligeiras e autocarros instalada na Zona Económica Especial da província do Icolo e Bengo. A fábrica corresponde à antiga unidade automóvel do China International Fund (CIF), que havia sido apreendida pelo Estado angolano em 2020 no âmbito do programa de recuperação de ativos públicos.

A infraestrutura estava associada a interesses empresariais ligados ao general Manuel Hélder Vieira Dias Kopelipa, antigo homem de confiança do então Presidente José Eduardo dos Santos, tendo sido integrada no perímetro de bens confiscados durante o primeiro mandato do Presidente João Lourenço.

Em maio de 2025, após concurso público conduzido pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE), o grupo Opaia venceu o processo de alienação da unidade industrial. Nove meses depois, a fábrica foi oficialmente colocada em funcionamento, com parceiros tecnológicos internacionais, incluindo as marcas chinesas Chery e Dongfeng, além da portuguesa Nors e da Volvo.

Um dos empresários mais visíveis da era Lourenço

Agostinho Kapaia é apontado como um dos empresários jovens que mais se destacou durante a era João Lourenço, beneficiando de um ambiente político marcado pelo combate à corrupção, pela reconfiguração das elites económicas e pela abertura de ativos anteriormente concentrados em círculos ligados ao antigo regime.

A passagem da antiga fábrica do CIF para mãos privadas nacionais é vista por analistas como um exemplo emblemático da nova fase do programa de recuperação de ativos: bens apreendidos ao Estado são reintegrados na economia produtiva através de investidores angolanos, com parcerias internacionais.

Segundo o grupo Opaia, a unidade industrial terá capacidade inicial para produzir cerca de 22 mil viaturas ligeiras e mil autocarros por ano, prevendo a criação de até 3.500 postos de trabalho diretos, com um investimento estimado em 150 milhões de dólares.

Incertezas no pós-Lourenço

Apesar do enquadramento institucional atual, observadores alertam que o futuro político de Angola poderá trazer novos desafios à estabilidade deste património. Com a aproximação do fim do ciclo político de João Lourenço, cresce o debate sobre eventuais disputas em torno de ativos recuperados ao Estado e posteriormente transferidos para agentes privados, sobretudo aqueles anteriormente associados a figuras centrais do consulado de José Eduardo dos Santos.

Alguns analistas consideram que, num eventual cenário pós-Lourenço, poderão emergir tensões políticas ou jurídicas relacionadas com bens que passaram das mãos de antigos “delfins” do anterior Presidente para novos grupos económicos, testando a robustez institucional do processo de recuperação e redistribuição de ativos.

Grupo Opaia

Fundado em 2002, o grupo Opaia opera nos setores da hotelaria, construção, mineração, transportes, energia e indústria, posicionando-se como um dos conglomerados nacionais com maior presença em projetos de grande escala. A Opaia Motors representa, segundo a empresa, a sua principal aposta industrial até à data e um marco na tentativa de relançar a indústria automóvel em Angola.

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