BP do MPLA obriga candidata da OMA a retirar candidatura

Luanda – A candidata ao cargo de secretária-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA), Graciete Edine Dombolo Chivaca Sungua, foi pressionada a retirar a sua candidatura, de modo a permitir que a chamada “candidata da direção”, Emília Carlota Dias, concorresse sem oposição no próximo congresso da organização.

LOURENÇO CONTRA MÚLTIPLAS CANDIDATURAS

Segundo apurou o Club-K, o Bureau Político (BP) do MPLA reuniu-se na segunda-feira, dia 19, em Luanda, tendo convidado Graciete Sungua a participar do encontro, no qual lhe foi solicitada formalmente a desistência da corrida. Durante a reunião, nenhum dos presentes conseguiu convencê-la a abdicar da candidatura, o que levou ao prolongamento do encontro por várias horas, além do tempo habitual.

De acordo com as mesmas fontes, a dirigente Ângela Bragança terá sido a única a intervir para adotar uma postura de neutralidade face à pressão exercida sobre a candidata. Um dos principais argumentos inicialmente apresentados foi o de que “não ficaria bem” uma militante membro do Bureau Político correr o risco de perder contra uma candidata que não integra esse órgão.

Os sinais de que o controlo da votação poderia estar em risco começaram a surgir numa reunião da direção da OMA, na qual as três candidatas foram submetidas a um processo de pré-seleção por voto. Ao longo da reunião, percebeu-se que várias militantes não estavam alinhadas com as orientações previamente definidas ou demonstravam confusão quanto ao sentido do voto.

A secretária-geral cessante, Joana Tomás, terá abordado algumas militantes, afirmando que cada candidata concorria por vontade própria, mas lembrando que “as senhoras já sabem em quem devem votar”.

Paralelamente, as mandatárias das candidatas foram impedidas de acompanhar a comissão de votos, alegando-se que foi nesse momento que se decidiram anunciar votos alterados. A estratégia encontrada foi afastar inicialmente a candidata Maria de Lourdes Caposso, que acabou humilhada com atribuição de apenas 16 votos, deixando em disputa apenas duas candidatas.

No dia seguinte, a direção do MPLA foi informada sobre a tendência dos votos e optou por resolver o problema internamente, em vez de avançar para uma votação em março próximo com 2.500 delegados, cujo controlo seria difícil.

Nos bastidores, Graciete Sungua contava com o apoio de uma ala considerada conservadora da OMA, da qual faziam parte a antiga secretária-geral Luzia Inglês Inga, Eulália Rocha, Eufrasina Maiato, entre outras figuras integrantes do Comité de Honra da organização. Emília Carlota Dias, por sua vez, além de contar com o apoio incondicional do líder do MPLA, com quem trabalhou durante vários anos, incluindo diretamente no período em que exerceu funções no Parlamento, beneficiava igualmente do respaldo de dirigentes como Joana Lina, Anabela Diniz e Milca Caquiesse, primeira secretária do MPLA no distrito urbano do Sambizanga.

A reunião de segunda-feira, dia 19, com as duas candidatas selecionadas pela OMA teve como principal objetivo persuadir Graciete Sungua a desistir da candidatura, permitindo que o órgão máximo do partido anunciasse a validação de uma candidatura única. Esta terá sido a razão pela qual, pela primeira vez, o Bureau Político do MPLA realizou uma reunião sem divulgar qualquer comunicado oficial.

Graciete Sungua recusou inicialmente retirar-se da corrida. No entanto, na terça-feira, dia 20, após ter sido aconselhada a não contrariar a vontade do líder do partido, acabou por ceder. Na sequência dessa decisão, o Bureau Político do MPLA emitiu uma convocatória de emergência aos seus membros para anunciar formalmente a desistência da candidata e validar a candidatura da escolhida pela direção, Emília Carlota Dias.

A preferência manifestada por parte significativa das militantes por Graciete Sungua assentava também numa dimensão histórica e simbólica: a intenção de honrar a memória da sua mãe, Alice Paulino Dombolo Chivaca, falecida em 2013, em Londres, que exerceu o cargo de secretária-geral adjunta da Organização da Mulher Angolana. À época, Alice Dombolo era considerada a candidata natural à sucessão na liderança da OMA.

Na sequência do seu falecimento, dirigentes da OMA terão preparado uma outra candidata Maria Isabel Malunga Mutunda (na foto), para assegurar a continuidade desse projeto. Contudo, no congresso de 2021, essa candidatura acabou igualmente por ser retirada, para favorecer Joana Tomás, então apontada como a candidata apoiada pelo Presidente do partido.

Para o congresso agora em preparação, a OMA voltou a revelar-se inclinada a apoiar Graciete Sungua, filha da antiga secretária-geral adjunta, vista por muitas militantes como herdeira política natural desse legado. Ainda assim, a sua candidatura acabou também por ser retirada contra a sua própria vontade, repetindo um padrão que, segundo fontes internas, representa a segunda vez consecutiva em dois congressos em que a organização feminina do MPLA fica impedida de fazer eleger uma candidata por si própria, previamente preparada.

A firmeza com que o Bureau Político decidiu intervir neste processo é atribuída ao precedente do congresso da JMPLA, em 2019, quando o candidato apoiado pela direção do partido, Domingos Bétiko, acabou derrotado nas urnas internas por Crispiniano dos Santos, escolhido pelos militantes para o cargo de secretário-geral

Club-k.net

Voltar ao topo