Carlos Rosado «Balanço de João Lourenço é negativo e ficou aquém das promessas»

Em declarações sobre o discurso do Chefe de Estado, que deverá apresentar um balanço da governação, analista antecipa uma intervenção longa, centrada nos resultados alcançados nos diferentes sectores, mas sem grandes novidades face aos pronunciamentos anteriores.

DINO DUARTE

O economista e analista Carlos Rosado considera negativo o balanço dos dois mandatos do Presidente João Lourenço, defendendo que as principais reformas prometidas, sobretudo no domínio político e económico, ficaram por concretizar.

“Não tenho, digamos assim, grandes expectativas”, afirmou Rosado, admitindo que ficaria “muito surpreso” caso o discurso presidencial fosse diferente dos anteriores. Para o analista, o padrão tem sido marcado por intervenções extensas, com balanços detalhados sobre praticamente todos os sectores da vida nacional.

Rosado aconselha, por isso, a equipa presidencial a evitar erros cometidos em discursos anteriores, sobretudo na apresentação de dados e indicadores económicos.

Autarquias continuam por concretizar

Na avaliação política, o principal ponto negativo apontado pelo analista é a ausência das autarquias locais, uma das reformas que considera fundamentais para a descentralização do poder e melhoria da governação.

“O meu problema são as autarquias. A principal reforma prometida pelo Presidente não foi realizada”, afirmou, lembrando que o próprio Executivo chegou a avançar uma data para a implementação das autarquias, sem que essas tenham sido efectivamente concretizadas.

Apesar de reconhecer que as autarquias não seriam uma solução para todos os problemas do País, Rosado entende que poderiam contribuir significativamente para a resolução de vários constrangimentos.

No plano económico, aponta, igualmente, a falta de reformas estruturais nos preços dos combustíveis, energia, água e transportes. Na sua leitura, estas medidas continuam a ser necessárias para corrigir desequilíbrios e tornar a economia mais eficiente.

A taxa de câmbio é outro dos exemplos apontados. Rosado recorda que, em 2018, no início do mandato, o Executivo deixou flutuar o Kwanza, mas considera que, a partir de 2023, houve um recuo, passando a moeda nacional a operar sob uma taxa que classifica como administrada.

“Do meu ponto de vista, o balanço é negativo”, reiterou, apontando as autarquias, a reforma dos preços e a política cambial como algumas das principais áreas em que esperava resultados diferentes.

Crescimento económico ‘preso por arames’

Entre os indicadores que João Lourenço deverá destacar no discurso, o analista antecipa referências ao crescimento económico, à redução da inflação, à descida da dívida pública e do desemprego, bem como à diversificação da economia.

Em contrapartida, contesta a interpretação oficial desses indicadores. Segundo o analista, a redução da inflação estará relacionada, em parte, com a manutenção dos preços da energia e com a estabilidade cambial.

Também discorda da leitura sobre a evolução do desemprego, defendendo que a redução registada está associada, fundamentalmente, à alteração da metodologia utilizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Argumenta que mais de dois milhões de pessoas que anteriormente poderiam ser consideradas desempregadas deixaram de integrar essa categoria por não terem procurado emprego na semana anterior ao inquérito.

“O desemprego não baixou nada”, afirmou, atribuindo a redução observada à alteração metodológica.

A mesma crítica é feita aos números relativos ao crescimento económico e à diversificação. Para o analista, as alterações introduzidas nas contas nacionais pelo INE contribuíram para modificar significativamente o peso de determinados sectores, nomeadamente a agricultura.

Rosado questiona, assim, os números que colocam a agricultura com um peso muito superior na economia nacional, considerando pouco convincente a dimensão atribuída ao sector.

Combate à corrupção foi «muito selectivo»

Sobre o combate à corrupção, Rosado reconhece que houve avanços, sobretudo por o fenóme no ter sido colocado no centro do debate político nacional.

Considera, contudo, que o Presidente João Lourenço prometeu mais do que conseguiu concretizar. Na sua perspectiva, o combate começou com medidas dirigidas a sectores e figuras próximas do antigo poder, mas acabou por assumir um carácter selectivo.

“Começou muito bem, atacando a corrupção e atacando o principal centro da corrupção, que era a Presidência da República e a família do Presidente”, afirmou.

O analista considera, no entanto, que o processo perdeu intensidade e deixou por esclarecer casos envolvendo figuras que, na sua leitura, deveriam, igualmente, ter sido investigadas. Entre os exemplos que menciona está Manuel Vicente, embora ressalve que não está a formular uma acusação, mas a defender a necessidade de investigação.

Para o economista, o combate à corrupção “amoleceu muito” e ficou longe de eliminar o fenómeno.

“Ninguém acredita que, ao fim destes anos todos, a corrupção tenha acabado”, afirmou, acrescenta ndo que o combate foi “muito selectivo” e acabou por ficar incompleto.

«O meu problema são as autarquias. A principal reforma prometida pelo Presidente não foi realizada»

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