Enquanto as gigantes petrolíferas europeias prometem uma “mentalidade de zero derrames” nos seus países de origem, as suas operações offshore ao longo da costa angolana parecem contar uma história diferente. Os derrames crónicos de petróleo no oceano deixam as comunidades sem peixe nem alimentos frescos, as praias ficam cobertas de crude e a exposição a substâncias tóxicas aumenta as doenças entre as comunidades locais. Uma investigação que durou um ano revela a crise humana e ambiental oculta de Angola.
Foram precisas cinquenta pessoas para puxar a rede para fora do mar. Não por causa do que tinha sido apanhado — não havia nada —, mas por causa do peso do petróleo. Petróleo bruto espesso e castanho-escuro que tinha impregnado a malha até ser necessário o esforço conjunto de quase toda a comunidade — homens, mulheres e crianças — perto de Soyo, na costa norte de Angola, para a puxar para a praia.
“Assim vamos viver como? Olha o que nos estão a fazer!”, ouve-se uma jovem gritar num vídeo em que a rede é puxada para fora. Encontramos Manuel e Raul*, dois pescadores, na mesma praia onde as imagens foram filmadas. Manchas de petróleo ainda sujam a areia, ao lado de plantas amareladas e cobertas de crude. Caranguejos mortos cobriam a areia. “Sempre que há malemba[mar agitado], o petróleo chega à praia”, disse Raul, um dos cinquenta. Tem sido assim há anos — e, para os pescadores que trabalharam nestas águas uma vida inteira, a situação só está a piorar.
Há 13 anos que petroleiros europeus, britânicos e norte-americanos se abastecem de petróleo bruto angolano e deixam para trás um rasto que os residentes descrevem como destruição sistemática e regular. Uma pequena área do leito marinho angolano — Kizomba A no Bloco 15, operada pela ExxonMobil e detida em conjunto pela BP (Reino Unido), ENI (Itália), Equinor (Noruega) e Sonangol (Angola) — derramou, cumulativamente, petróleo numa área com, pelo menos, o tamanho de Montenegro, de acordo com a nossa análise de imagens de satélite.
O petróleo obstrui as redes de pesca. Escurece a mandioca, as laranjas e as bananas, e seca os coqueiros; envenena os peixes de que as comunidades nas províncias do norte do Zaire e de Cabinda dependem para sobreviver e, ainda assim, por vezes comem-no, porque a alternativa é passar fome. Muitos passam dias sem comer, enquanto outros sentem que não têm outra opção senão comer os alimentos tóxicos, expondo-se a potenciais agentes cancerígenos e a perturbações gastrointestinais. O sulfureto de hidrogénio tóxico libertado pela atividade de extração de petróleo, que se infiltra nas plantações de banana, também constitui um perigo para a respiração. O seu odor sulfuroso, a ovo podre, provoca náuseas e vómitos.
Um porta-voz da ExxonMobil declarou: “As nossas inspeções não encontraram qualquer evidência de anomalias operacionais, falhas de equipamento ou perda de contenção nas instalações do Bloco 15 que expliquem a mancha observada ou os alegados impactos.”
Apesar das queixas de várias comunidades costeiras no Zaire e em Cabinda, os derrames continuam.
A dimensão do problema
As imagens de satélite não mostram qualquer vestígio de fugas de petróleo antes da instalação da plataforma Kizomba A, em 2002. Os primeiros sinais de petróleo na superfície do mar parecem ter surgido em 2003, quando a extração teve início. Os avistamentos esporádicos continuaram até 2007, altura em que os derrames de média dimensão começaram a persistir durante semanas a fio. Em 2013, já se tinham tornado permanentes.
Desde então, pelo menos 19 barris de petróleo parecem ter sido espalhados por 3 km² todos os dias no Bloco 15, de acordo com imagens de satélite. Ao longo deste período, isto representa um total acumulado de cerca de 90.000 barris ou 14.235 m³ no cenário mais conservador — um desastre comparável ao naufrágio do petroleiro Erika em 1999.
Um cenário, que o perito consultado considerou “possível”, estima que o derrame atingiu os 711.750 m³, ou seja, cerca de 4,5 milhões de barris, o que se aproxima muito do derrame do desastre da plataforma offshore Deepwater Horizon. E alerta ainda que a análise por satélite consegue detetar a superfície do derrame de petróleo, mas não a sua espessura, que o derrame poderá até ser maior do que isso e que os exemplos mencionados se referem a libertações repentinas de petróleo, enquanto o caso que estamos a observar se estende por um período de 13 anos.
A discrepância entre estes dados e o registo oficial de Angola é gritante. Com base em sete anos de dados, a agência nacional de petróleo e gás ANPG relata uma média de apenas 450 barris derramados por ano, em todos os blocos offshore do país. Ou seja, uma fração do valor mínimo estimado apenas para o Bloco 15. Nem a ExxonMobil nem os seus parceiros divulgam os volumes de derrames discriminados por país, o que dificulta a verificação independente — a análise por satélite tornou-se uma das únicas ferramentas disponíveis para as comunidades e os investigadores.
“A análise mostra provas abundantes de uma descarga contínua de petróleo que, com base em imagens de satélite, não existia antes de 2002, o que sugere que este petróleo flutuante é produzido por intervenção humana, dada também a proximidade às infraestruturas dos produtores de petróleo”, comentou Oscar Garcia, geocientista e fundador da Water Mapping LLC, após analisar as conclusões.
Impulsionado por correntes de superfície e pelo vento, um derramamento persistente como este pode definitivamente atingir a costa — um cenário que vimos acontecer de forma quase idêntica no Golfo do México e na Califórnia.
A ExxonMobil atribui os derramamentos a uma infiltração natural. “Infiltrações naturais de hidrocarbonetos estão presentes nas águas offshore de Angola e são anteriores às operações da ExxonMobil no Bloco 15. Levantamentos identificaram infiltrações de ocorrência natural aproximadamente um quilómetro a norte das instalações de Kizomba A que são compatíveis com a mancha observada”, disse o seu porta-voz. A empresa não respondeu ao nosso pedido de envio de uma amostra do petróleo derramado, a qual permitiria aos cientistas corroborar a sua tese sobre a infiltração natural.
“A ExxonMobil articulou-se com as autoridades competentes e continua a monitorizar a área e a avaliar os dados disponíveis.”
As próprias memórias dos residentes convergem com os registos de satélite. Estes recordam os maiores derramamentos ocorridos em 2003, 2005 e 2025 em Cabinda, e em 2020 perto de Soyo, com derrames menores a ocorrerem de forma quase constante entretanto. “Até os nossos pais, que deixaram de lidar com este problema, morreram”, disse José, um pescador de Cabinda. O seu colega António, refletindo sobre os 52 anos que passou a pescar nestas águas, foi mais direto: “Temos extração de petróleo e derrames desde 2003 e agora estamos em 2026. O problema aqui com a pesca é este: estamos completamente lixados.”
A análise dos dados relativos aos ventos e correntes predominantes em torno do Bloco 15 corrobora o testemunho dos residentes de que uma parte dos derramamentos detetados provavelmente chega à costa.
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