O parque solar de Lucapa, na Lunda Norte, foi apresentado em Junho de 2025 pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, como capaz de beneficiar mais de 45 mil habitantes com electricidade limpa e mais barata, poupando ao Estado mais de 900 mil milhões de kwanzas por ano. Pouco mais de um ano depois, a promessa colide com a realidade: os munícipes queixam-se de restrições constantes, sentidas com particular severidade nos bairros periféricos.
O administrador municipal, Adriano Paulo Muandumba, admitiu, em entrevista a uma rádio local, o que os discursos de inauguração preferiram não sublinhar: o parque, com 8 megawatts de capacidade instalada, foi concebido para suportar apenas 1.700 ligações domiciliares — uma fracção muito distante dos 45 mil habitantes prometidos publicamente pela tutela. Hoje, com 3 mil ligações activas, quase o dobro do limite original, a infraestrutura funciona abaixo do potencial, incapaz de acompanhar um consumo que a ultrapassou desde cedo.
Lucapa não é caso isolado: integra um programa nacional de sete centrais solares — em Saurimo, Lucapa, Luena, Bailundo e Cuito —, com um milhão de painéis e 370 megawatts combinados, investimento de 523 milhões de euros financiado por bancos europeus e agências como a EKN e a Euler Hermes. A questão que os munícipes colocam é simples: como pode um projecto planeado com tal rigor financeiro ter sido dimensionado tão longe da procura real de um município com mais de 150 mil habitantes?
Questionado sobre uma solução, o administrador remeteu a resposta para outra frente — a recuperação de antigas subestações e a construção de linhas de média tensão a partir do aproveitamento hidroeléctrico de Luachimo —, sem esclarecer se ou quando o parque solar verá a sua capacidade reforçada para cumprir o que foi anunciado à população no dia em que as luzes se acenderam, pela primeira vez, em Lucapa.
Luanda Post
