Durante anos, Hélder Bataglia foi um dos empresários mais influentes de Angola, homem de confiança do extinto Grupo Espírito Santo (GES) e protagonista de alguns dos maiores negócios entre Luanda, Lisboa e Pequim. Hoje, apesar de o seu nome continuar associado ao colapso do Banco Espírito Santo Angola (BESA), que custou milhares de milhões de dólares ao sistema financeiro angolano, o empresário luso-angolano continua a ser visto em Luanda, mantendo uma presença discreta, mas activa, na capital.
Fundador e presidente do Grupo Escom, Hélder Bataglia construiu um império empresarial com interesses na mineração, petróleo, imobiliário, energia, pescas, aviação e infra-estruturas em vários países africanos. A plataforma empresarial nasceu em 1992 por iniciativa do Grupo Espírito Santo, que detinha 66% da Escom, enquanto Bataglia controlava 30%, assumindo o papel de principal elo entre os interesses do grupo financeiro português e o poder político angolano.
Foi precisamente essa proximidade que colocou Bataglia no centro de uma das maiores crises financeiras da história de Angola. Após a queda do Grupo Espírito Santo, em 2014, as investigações sobre o BESA identificaram operações que terão permitido financiar activos da Escom através de centenas de milhões de dólares em crédito concedido pelo banco.
Segundo as autoridades portuguesas, uma operação realizada em 2013 envolveu cinco sociedades-veículo que receberam cerca de 379 milhões de dólares em financiamentos destinados à aquisição de activos ligados à Escom. O objectivo, segundo os investigadores, seria retirar dívida do balanço da empresa antes da consolidação das contas do Grupo Espírito Santo.
As investigações apontam ainda que a dívida total da Escom ao BESA ultrapassava os 600 milhões de dólares, tornando-se uma das maiores exposições individuais da instituição financeira. O colapso do banco obrigou posteriormente o Estado angolano a intervir para evitar a falência do sistema bancário, num processo que implicou sucessivas injecções de capital e culminou na transformação do BESA em Banco Económico.
Ao longo de todo o processo, Hélder Bataglia negou qualquer prática ilícita e nunca foi condenado criminalmente em Portugal ou em Angola relativamente ao caso BESA.
O empresário também viu o seu nome surgir em outras investigações internacionais, incluindo o chamado processo dos submarinos portugueses, os Panama Papers e os Suisse Secrets. Em alguns destes processos foi ilibado, enquanto noutros nunca chegou a ser condenado.
Antes disso, Bataglia desempenhou igualmente um papel relevante na aproximação económica entre Angola e a China. Antigos responsáveis angolanos, incluindo o ex-vice-presidente Manuel Vicente, reconheceram publicamente que o empresário foi um dos primeiros intermediários a abrir portas às empresas e ao financiamento chineses, numa altura em que Pequim se tornava o maior parceiro comercial de Angola.
O seu percurso empresarial decorreu praticamente em paralelo com os 38 anos de governação de José Eduardo dos Santos. Durante esse período, a Escom tornou-se uma das plataformas privadas mais influentes do país, beneficiando da forte expansão da economia angolana e do acesso privilegiado a sectores estratégicos.
Passados mais de dez anos sobre a queda do Grupo Espírito Santo, o nome de Hélder Bataglia continua ligado a um dos episódios mais marcantes da banca angolana. Embora nunca tenha sido condenado no âmbito do caso BESA, os processos judiciais e relatórios de investigação mantêm-no entre as figuras mais associadas ao colapso da instituição financeira, cuja factura acabou por ser suportada, em grande medida, pelo Estado angolano e, indirectamente, pelos contribuintes.
Apesar desse passado, Bataglia continua a circular por Luanda, uma cidade onde, durante décadas, construiu uma vasta rede de relações políticas e empresariais que ajudaram a moldar alguns dos maiores negócios da era do petróleo.
