Manuel Vicente entre as peças de João Lourenço

ANÁLISE: Fontes mencionam encontros discretos, apontam recandidatura de João Lourenço à liderança do partido e alertam para um nome fora do radar Cabeça de lista do MPLA para as eleições de 2027 pode ser uma surpresa.

Por César Silveira

Os cenários da sucessão presidencial de 2027, em Angola, estão a ser desenhados longe da praça pública. Formalmente, o país pre-para-se para um novo ciclo. João Lourenço não poderá recandida-tar-se, mas, segundo apurou o Valor Económico junto de fon-tes que circulam nos corredores do poder, o essencial da transi-ção pode já estar a ser decidido, e fora dos canais formais.

Os nomes que dominam o espaço público Manuel Homem, Ana Dias Lourenço, Adão de Almeida, Pereira Alfredo e Mara

Quiosa continuam a ser apre-sentados como potenciais candi-datos. No entanto, várias fontes ouvidas descrevem este movi-mento como “gestão de percep-ção”, sem que exista, até agora, consenso interno sólido em torno de qualquer uma dessas figuras,

Fontes com conhecimento directo das dinâmicas internas relatam a realização de encon-tros estratégicos reservados, alguns fora das estruturas for-mais do MPLA, envolvendo figu-ras com peso político e económico. Segundo relatos coincidentes, nes-sas reuniões discute-se um perfil específico: alguém com capaci-dade financeira, experiência exe-cutiva e previsibilidade política.

É nesse ponto que emerge um nome até aqui ausente do debate público: Manuel Vicente.

Nenhuma fonte confirma defi-nitivamente a escolha. Mas várias admitem que o antigo vice-presi dente tem sido “reavaliado” como solução possivel num cenário de transição controlada.

Há três factores que susten tam essa leitura.

O primeiro é juridico. Apesar de ter sido associado a processos ligados ao combate à corrupção, Manuel Vicente nunca foi formal mente constituido arguido em Angola, um dado que, segundo fontes ouvidas, “preserva a elegi bilidade e mantém todas as opções em aberto”.

O segundo é político. Tudo indica que João Lourenço deverá avançar para a sua própria suces são na liderança do MPL.A, mesmo sem poder ser candidato presiden cial. Nos bastidores, esta decisão é interpretada como uma forma de manter controlo directo sobre a escolha do cabeça de lista.

“Sem o partido, não há can didato”, resume uma fonte ligada às estruturas intermédias.

O terceiro é económico. Fon tes do sector sublinham que Manuel Vicente mantém redes de influência relevantes, construídas ao longo da sua passagem pela Sonangol e por circuitos interna cionais. Num contexto de pressão financeira, esse factor é descrito como “determinante, ainda que silencioso”.

Há, contudo, um ponto de ten-são evidente. Ao longo dos últi-mos anos, João Lourenço tem defendido a necessidade de pas sagem de poder para uma nova geração. Mas a eventual escolha de Manuel Vicente, com cerca de 69 anos, entra em choque directo com essa narrativa. Mais do que uma questão de idade, trata-se de coerência política.

Se confirmada, essa opção poderá sinalizar uma inversão: da renovação prometida para uma continuidade controlada.

“Entre discurso e estabilidade, o sistema tende a escolher esta-bilidade”, observa um analista.

É neste contexto que o con-gresso do MPLA, previsto para Dezembro, ganha centralidade.

A eventual recandidatura de João Lourenço à liderança do par-tido abre dois cenários principais. No primeiro cenário, da tenta-tiva de imposição de uma even-tual bicefalia, Lourenço vence o congresso e mantém-se como líder do MPLA, escolhendo um candidato presidencial alinhado.

Na prática, cria-se uma sepa-ração entre o poder partidário e o poder executivo. O Presidente governa, mas o centro politico permanece no partido.

Nomes como Manuel Vicente ou Fernando Garcia Miala encai-xam neste modelo: perfis fortes, mas sem base partidária suficien-temente autónoma.

O risco é interno. Em 2017, quando José Eduardo dos San-tos tentou manter-se à frente do MPLA, após deixar a Presidên-cia, emergiu uma forte oposição à chamada bicefalia. Esse movi-mento contou com apoio de sec-tores que hoje continuam activos dentro do partido. Reeditar esse modelo pode reabrir fissuras.

No segundo cenário, João Lou-renço vence o congresso não para dividir o poder, mas para con-trolar o processo de escolha do candidato. É um modelo mais. discreto: o partido escolhe, mas sob liderança directa. O futuro candidato surge como resultado de equilíbrio interno, ainda que condicionado. Mas este cenário levanta uma questão crítica: se o objectivo é apenas influenciar, por que razão João Lourenço pre-cisa de se manter na liderança? Não poderia apoiar um suces-sor alinhado? A resposta pode estar, novamente, nos nomes. Figuras como Manuel Vicente ou Fernando Garcia Miala difi-cilmente emergiriam sem inter-venção directa de João Lourenço.

UMA SUCESSÃO OU UMA ARQUITECTURA DE PODER?

Há ainda um terceiro cenário, o da não recandidatura de João Lourenço à liderança do MPLA. Mas, a julgar pelos sinais recolhi-dos, essa hipótese perde força face à lógica de controlo que tem mar-cado o processo. No fim, a ques-tão central pode não ser quem será o candidato. Mas sim como será exercido o poder após 2027.

Se o congresso de Dezembro confirmar a manutenção de João Lourenço na liderança do par-tido, então a sucessão presiden-cial deixará de ser apenas uma escolha eleitoral.

Passará a ser parte de uma arquitectura política mais ampla em que o poder muda de mãos, mas não necessariamente de cen-tro. E, nesse desenho, o nome que ninguém confirma pode ser pre-cisamente o mais decisivo.

Valor Econômico

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